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sexta-feira, 29 de janeiro de 2021

Um recado de mim do passado pra mim do futuro

Hoje não me recolho

À minha suposta insignificância

Não me encolho pra caber no sonho de alguém 

Como quem não sabe amar.

Ao contrário 

me expando

Explodo

à minha imensa significância

Ressignifico a distância

amalgamando

saudades

Amando


Meu constante desafio:

Me re-apaixono por mim mesma a cada instante.


Dito assim parece fácil

Parece um fio

Suspenso no espaço 

mas em meu sótão habitam

uns 4 mil fantasmas

Embora tenha medo do futuro

Muito mais que de almas penadas. 


então apenas

Viro pena

Viro pluma

Viro folha

deixo estar.

Permito ao universo 

seguir seu fluxo

E que ele me permita

nunca desistir

de ser livre

Que ele nunca me permita 

desistir

De ser leve

E que ele me permita 

nunca desistir de amar 


Que ele apenas

me leve

Ao sabor de uma brisa

Que cheira a sol 

Vento

Sol

Lar


(escrito em julho/2020 - arte por Pixie O'Harris #carentena #adamavagabunda)

terça-feira, 31 de março de 2020

A MULHER NA VARANDA (OU REQUIEM PARA UMA ESTRELA)




Hoje eu vi uma mulher
Chorando na varanda.
Ela deitava no chão,
em posição fetal,
e se encolhia tanto, abraçando firme os joelhos,
como se quisesse guardar dentro de si.
Ela tentava recolher-se ao próprio útero
Refúgio da mãe terra
e ali se esconder para sempre.
Ela se contorcia, esforço inútil
em ocupar o menor espaço possível
num mundo onde talvez ela não queira mais viver.
Ela quer atomizar, reduzir-se ao quase nada
que agora habita o espaço
onde um dia batia o seu coração.
Olhando para a mulher chorando na varanda,
pensei em uma serpente
devorando o próprio rabo
Linda
Trágica
E letal.
Mas talvez ela fosse uma estrela
que deixou-se queimar toda
para enfim colapsar.
Uma mulher que já expandiu em supernova,
e num ato final foi-se embora
toda a luz e energia do seu corpo em implosão.
Eu chorei junto com essa mulher
em estado de entropia,
E as lágrimas no meu rosto
entraram em combustão.
Me encolhi e me enrolei
Colapsei e me guardei
dentro de mim.
Mergulhei no ventre escuro da mãe terra.
Porque essa mulher era eu
E eu, essa mulher, era ela.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Me dá
Me dá teu sorriso
Me dá uma migalha do teu riso
Que eu fico sorrindo
Descasquei minhas unhas arranhando o tapete
Arrancando o vestido
Abrindo na pele com as mãos precipícios
Suplicando
Suplícios
Implorando
Implodindo edifícios
Explodindo em estrelas de artifício
Me dá um punhado de falsas promessas
De meias verdades
De incertas virtudes
Que eu sigo insistindo.

terça-feira, 14 de abril de 2009

máscara

Ostento um sorriso meticulosamente esculpido
Na máscara etérea que escolho para o dia.
Por este motivo não percebem que eu sofro
Aqueles que me olham na rua de relance
e os que me dirigem cordiais saudações
todas as manhãs a caminho do trabalho.
Apenas um olhar atento – mais que atento, comprometido,
notaria talvez, quem sabe,
por sob o manto volátil que encobre o meu rosto,
uma gota equilibrando-se no canto do olho esquerdo,
como que a desafiar a lei da gravidade,
recusando-se a rolar maçã do rosto abaixo
até escorrer pelo meu queixo afora,
cumprindo assim seu inexorável destino de lágrima.
E ainda um leve, quase imperceptível pulsar
no canto direito do meu lábio superior,
sintoma de um desejo inconsciente de pranto
que acaba por nunca se materializar.
Porque este olhar, ah, este olhar...
Este olhar, meus senhores, simplesmente não existe.
Porque o comprometimento do olhar com o objeto olhado,
a verdadeira cumplicidade da córnea humana
com cada partícula luminosa responsável
pela formação da imagem enxergada,
esgotou-se no cansaço da oferta em demasia.
Hoje apenas derramamos olhares descompromissados,
pois há tanto pra ver e tão pouco tempo,
e tanta fadiga em nossas retinas exauridas...
Sigo, portanto, carregando sobre a face
a minha reluzente máscara kabuki,
e todo o mundo há de crer ser esta expressão vazia,
estanque, torpe, imutável, sorridente,
legítima representante do que carrego em minha alma.
E sua verdadeira expressão? – perguntariam, então, os senhores...
Esta permanecerá eternamente escondida, sepultada,
ao longo de toda a minha existência,
condenada à constante iminência
do pranto impossível de ser consumado...

sexta-feira, 13 de março de 2009

Junkielove morning

Amanhecemos num pé-sujo da Lapa,
as putas e os travestis já se foram.
Mais um copo, mais um beijo,
sabor de cevada e nicotina numa mistura indigesta,
e o sol nascente me deixando mais letárgica, mais letárgica, mais...
Será que é possível estar mais bêbada? Pago pra ver.
E você acha graça, provavelmente pensando
“existe alguém no mundo mais junkie do que eu!!!...”

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Música pro fim do carnaval

Mais um carnaval que termina...
Eu ainda carrego o estandarte com um coração vermelho pintado partido ao meio.
Sambei sobre cacos de vidro
só pra ver se a vida devolve tua imagem perdida na escola de samba.
Ah, se eu pudesse ser bamba
Ah, se eu pudesse ser tua
Ah, se eu pudesse ser todo o confete que desce no meio da rua...
Pra colar no teu corpo
Pra rolarmos no asfalto
pra cair lá do alto e forrar de poeiras de estrelas cadentes
onde você pisa.
meu coração ainda precisa
carnaval o ano inteiro
pra esquecer que no passado te ganhei e me perdi.
Meu coração tá cansado de sambar descompassado
no carnaval que termina te perdi.

sábado, 24 de janeiro de 2009

A Esquizofrenia do Mundo

A esquizofrenia do mundo provoca revoadas de borboletas no meu estômago.
Enquanto caminho pelas mesmas ruas por onde caminhei toda a vida
penso no que aconteceria se pudesse andar de olhos e ouvidos fechados,
mas ainda assim andar, numa espécie de semi-autismo, ativo e voluntário.
(contraditório? absurdo?...)
Ah, mundo! Por que não me deixa em paz de uma vez?
Por que a humanidade não vai ver se eu estou na esquina?
Que os celulares derretam e os computadores explodam,
e os corretores da bolsa de valores
e os corretores de todos os seguros
e os malditos corretores de imóveis
e os corretores de alma, sangue e supostos sonhos
sejam todos jogados na rua de cueca samba-canção e narizes de palhaço
e que pelo amor de Deus, de Jah, de Buda, de Oxalá,
e de todos estes entes dos quais nunca mais quero ouvir falar,
não me dirijam mais a palavra.
Aos advogados, testemunhas de jeová, psicólogos, políticos e todos os demagogos,
aviso que não nasci.
Aos programadores, analistas de sistemas, cientistas e especialistas de todos os tipos,
aos filhos, discípulos e adoradores da técnica,
digo que sequer sei fazer fogo esfregando gravetos
e que ainda uso pedras lascadas para estripar animais mortos.
Parem de tentar me enfiar pela goela abaixo produtos de funcionalidade questionável e qualidade duvidosa.
Não tentem me vender nada. Não tentem me fidelizar.
Não tentem embotar o meu raciocínio com suas mensagens subliminares
e sua gestalt de merda. Sou cega. Sou surda.
Seu fetiche de pernas escancaradas não me seduz.
Ah, por favor, não falem comigo.
Eu mordo. Eu tenho pressa. Eu tenho raiva. Eu tenho fome.
Eu tenho um nó no peito e borboletas no estômago e olhos inchados de lágrimas.
Eu tenho uma bomba atômica e não tenho medo de usá-la.
Eu tenho acima de tudo a alma convulsiva de poesia em estado bruto.
Eu sofro.
E a única coisa que peço é pra ser deixada em paz.
Antes que o mundo me exploda
ou que eu exploda o mundo.
Antes que eu exploda.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Antropofagicomic

Você vai embora e leva um pedaço de mim
numa quentinha pra comer mais tarde.
A luz do nascente que invade o meu quarto
ilumina o pedaço de mim arrancado,
banhado no molho pardo do sangue
que há pouco corria em minhas veias
até desaguar em sua boca que o sorvia.
E eu ria, eu ria, eu ria,
enquanto você canibalesco se fartava
do banquete que eu te oferecia;
enquanto você, obstinado e doente,
cego e abstinente do meu corpo,
me comia.

quarta-feira, 16 de julho de 2008

De Madrugada

De madrugada escrevo.
De dia faço quase nada...
leio hqs e livros que eu já li,
durmo em frente à tv,
como comida congelada
abençoada por santas microondas.
De madrugada
sacudo um pouco do torpor
para fora do meu corpo,
faço pequenas ranhuras
no invólucro da letargia,
e despejo palavras
sobre páginas vazias...

sexta-feira, 13 de junho de 2008

Fragmentos Niilistas



Fragmento-alienação-pós-moderna:
Viva o evento!
Palavras? Sempre! Ao vento...

* * * *

As palavras, mal-usadas,
De forma leviana,
Tornam cada vez mais enfadonhas
As relações (des)humanas.

* * * *

Sonho-utopia de um amigo:
troquemos nossos carros
por estantes cheias de livros!

* * * *


Quero um olhar supra-sensorial
Para ver através, e além
Do torpor habitual.



(Obs.: se você, assim como eu, revoltou-se com o uso abusivo do hífem neste post, não fique calado! Faça sua denúncia em www.amahífen.com.br)

sábado, 7 de junho de 2008

Tecnicolor

Na frente do espelho percebo
que o esmalte vermelho e o cabelo preto
são os subterfúgios de cor que inventei pra mim
porque me inventaram assim: cabelo claro, unha branca.
Mas o colorama das unhas, wellaton dos cabelos
São pura reinvenção do olhar que quero do mundo.
São o meu jeito de mostrar, na superfície do que sou,
um profundo desejo de recolorir tudo.
Mudo a cor dos cabelos. Mudo o mundo?
Inverto tudo e invento: cabelo vermelho, unhas pretas.
E pronto.