sábado, 7 de outubro de 2017

Burlesque Lover


Quero fazer movimentos fluidos
no palco apático da tua libido.
Fazer em teu corpo, comedido,
Estático, encolhido,
o corte profundo de um simples afago.

(na foto, Luz Del Fuego)

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Numa tarde de quarta...

Numa tarde de quarta-feira que deveria ser apenas mais uma como outra tarde de quarta-feira qualquer, ela se viu empreendendo uma profunda, dolorosa e ao mesmo tempo enternecida, jornada emocional. Por um motivo corriqueiro, ela teve que visitar o bairro onde nasceu, viveu sua infância, adolescência, cresceu. Depois desses anos intensos, ela saiu de lá, casou, descasou, rodou por aqui e ali, e acabou por achar outro bairro, outra gente, outro bar, outra praça pra chamar de seus. Tinha algo de urgente, em meio ao corre-corre diário, pra resolver ali. Era coisa, rápida, de bate-pronto, pá pum. Um ônibus, um metrô, uma rápida caminhada. Dava pra encaixar naquelas duas horinhas entre um compromisso e outro daquele dia cheio. O que ela não esperava é que o retorno àquela vizinhança, naquela tarde abafada e banal, fosse provocar em seu peito tamanha avalanche de sensações e lembranças. Avalanche que começou com uma leve pontada de saudade e reconhecimento quando ela emergiu da estação do metrô. A visão daquela praça, daquela rua repleta de flores, ladeada pelos antigos cinemas da infância, fez ela parar por um minuto e respirar mais fundo, tomar um pouco de fôlego pra continuar.Os cinemas, como tem sido o infeliz costume na cidade esvaziada de alma, deram lugar a uma igreja universal e a uma hiper-farmácia, mas a memória da fila virando o quarteirão em dia de estréia de filme encheram seu coração de cálida nostalgia. O assunto a ser resolvido era bem ali próximo, e depois do fôlego recuperado ela atravessou a rua florida e cumpriu rapidamente sua missão. Na volta, no entanto, ao invés de descer a escadaria do metrô, ela se sentiu irresistivelmente compelida a andar na direção contrária, rumo às galerias onde, por um outro motivo, ou por pura falta deles, ela havia muitas e muitas vezes circulado. Entrou por uma, tomada de lembranças, mas saiu logo pelo outro lado, porque a verdadeira emoção encontrava-se na próxima galeria adiante. Apesar de muita coisa haver mudado, ali ainda estavam, como que congelados no tempo, o antigo estúdio de tatuagens e as mesmas lojas de discos e camisetas. Ali, naquelas lojas, naquela galeria, reuniam-se os metaleiros, os punks, todos os fãs do bom e velho roquenrrol habitantes do bairro, e de outros cantos da cidade também. Ali as lembranças tornaram-se mais nítidas, mais vivas, desenrolando-se em sua memória com inesperada clareza e vigor. Mais uma pausa pra respirar fundo. Ela sentiu que queria caminhar. Para onde ela ainda não sabia, mas aquela de sensação de calorosa familiaridade com o espaço ao redor a deixou subitamente repleta de energia. Foi caminhando pela movimentada rua principal, lentamente, contrastando com as outras pessoas que perambulavam apressadas pra lá e pra cá, no frenesi urgente das duas e meia da tarde daquela quarta-feira. Ela olhava tudo e ia reparando no que mudou, no que permanece igual. Passou por mais um dos finados cinemas do bairro, transfigurado em gigantesca loja de departamentos. "Oh não, mais um, que pontada no coração". Cada metro de calçada transcorrido a levava a novas e vívidas lembranças, "fulano morava aqui, como me diverti nas matinês nesse clube, olha! aquela loja ainda existe no mesmo lugar!". Quase sem querer, quase sem notar, suas pernas a levavam mais e mais próxima do entorno onde ela morou. Uma lanchonete, uma igreja, um banco, mais uma galeria (como o bairro é cheio delas, solenes e imponentes!). Uma grande loja, um supermercado. Quando deu por si, ela já estava na esquina da outra praça. A outra praça. Que na verdade, pra ela, é A praça. Naquela grande, arborizada, bucólica praça e seu entorno, ela vivera muitas de suas melhores aventuras. Desde a infância brincando no playground de ferro e cavalgando os amados cavalinhos ou voltando pra casa de charrete, até a adolescência com suas emoções avassaladoras, seus dias calmos de conversas e paqueras intermináveis à sombra das árvores, na lanchonete, no gradil sobre o velho e fétido rio - já totalmente poluído àquela época. Ela respirou o ar da praça, neste ponto já tão emocionada que era como se um nó lhe apertasse com força a garganta. A praça estava ainda mais bonita do que ela se recordava, reformada, cheia de vida como sempre fôra, porém agora mais limpa e organizada, crianças brincando, idosos jogando cartas, gente correndo ao redor ou fazendo exercícios na nova academia ao ar-livre. A velha barraquinha de cachorro-quente dera lugar a sofisticado food truck, sinal dos tempos. Foi caminhar mais uma quadra pra notar que o boteco pé-sujo que ela frequentava, ponto de encontro dos amigos de outrora pra cerveja, vadiagem, conversa fora, se transformara em uma padaria "gurmetizada". Embora o ambiente fosse a antítese daquele que ela guardava na memória, não resistiu ao apelo de tomar uma cerveja gelada, brindando consigo mesma às boas memórias e à algumas talvez não tão boas assim, ponderando que todas fizeram parte, de uma forma ou de outra, do tão necessário aprendizado da vida. Ao lado do bar, há exatos 20 anos, morava o seu primeiro amor, sua primeira paixão avassaladora, naquele tempo de descobertas, de querer devorar o mundo todo ao mesmo tempo, de querer experimentar tudo que a vida tem pra oferecer de uma vez só, como se tudo fosse acabar amanhã. Tantas lembranças, boas e ruins, olhando praquele prédio, a portaria, o play. Desejou, mesmo sabendo impossível, voltar a ser aquela menina, mas com a sabedoria e experiência de agora. O nó se apertou. Mais alguns passos, e antes de entrar na ruazinha sem saída parou sob a sombra da marquise do prédio da esquina, como costumava fazer na época, e pôs-se a observar o ir e vir de quem passava, como fazia então, sozinha ou acompanhada. Ao percorrer a pequena e arborizada rua sem saída, surpreendeu-se com a descoberta de que agora ela dava na entrada dos fundos de um grande supermercado. "Ah, se essas árvores pudessem falar..." Atravessou o grande supermercado, dando mais uma vez na rua principal. Virou na próxima esquina, chegou na praça de novo, sentou ali num banco, de frente ao outro bar, com a cabeça e o peito atordoados de lembranças - uma mesa compartilhada com a amiga inseparável, camisetinha preta com logo da Harley-davidson, saia longa indiana, coturnos. Mate, bolinhos de bacalhau, risadas – muitas, muitas risadas! Começou a se sentir profundamente familiarizada com aquelas pessoas que passavam, que corriam, que passeavam com seus cães, que bebiam no bar à frente. Nessa hora o estômago roncou, e pra fechar essa tarde de intensa nostalgia com chave de ouro, não poderia haver melhor pedida do que a tradicional empada que, embora atualmente fosse facilmente encontrada nos quatro cantos da cidade, ainda podia ser saboreada ali, na mesma loja da rua principal do bairro onde ela nasceu. A empada continua tão boa quanto nos velhos tempos, em que o filho do dono trabalhava na loja e ela aproveitava a ocasião de comprar empadas pro lanche da família pra poder admirar timidamente aqueles belos cabelos longos... Fome saciada, coração acalentado, ela sentiu que era hora de voltar pra casa e pro aqui-e-agora. Avistou um ponto de ônibus e pra lá se dirigiu, cansada, confusa, nostálgica, sentindo-se um pouco tonta com a mistura inexplicável de excitação, exaustão e melancolia latejando dentro dela. Enquanto, sentada no ônibus a caminho do Centro, a mulher que ela é empreendia um lento e gradual retorno ao tempo atual em meio ao trânsito caótico da hora do rush , a menina que ela era naquele pretérito imperfeito, sorrindo em seu quarto no antigo apartamento, sonhava com o futuro emocionante que se estendia misterioso à sua frente. (imagem: Chiara Bautista, aka Milk)

terça-feira, 24 de maio de 2011

P a s s a t e m p o


Às vezes tenho vontade de ter febre, apenas pra sentir-me queimar novamente. Tenho uma nova obsessão: invento romances que não existem porque brincar de faz-de-conta ajuda a esquecer a dor da passagem do tempo. Mas a realidade volta e meia solicita minha presença com a voz fria de quem anuncia o portão de embarque de um vôo pra lugar nehum. Minha vó costuma dizer: “cabeça vazia, oficina do diabo”. Uma amiga ‘viada’ diz simplesmente, me sacudindo: “Get a life, biatch!”. Eu retiro do fundo da gaveta empoeirada aquela resposta pobre, mas limpinha, pra entregar pra minha vó, que já está morta, e pra minha amiga – que é imaginária. A mesma resposta que dou pra minha consciência todas as vezes em que ela resolve vestir seu uniforme de governanta alemã e me cobrar atitudes: “Tô tentando, mas vocês não sabem o quanto anda difícil ser eu ultimamente.” E me regozijo do quanto eu posso ser cretina e auto-piedosa, e sinto um nojinho de mim que é quase gostoso de sentir. Mas passa rápido.
No fundo sou apenas uma garota que ainda não conseguiu entender exatamente o que é ser uma mulher, embora não o admita a nenhum ser vivente que não seu gato persa e sua tartaruga chamada Dinorah, e desconfia que isso pode perdurar até que ela morra aos 80 anos, louca e esquecida em algum tempo ancestral ao seu.
Nos meus romances inventados há muito pouco drama, o amor é descomplicado e as horas boas passam lentas, como deveria ser na vida real, mas quase nunca é. Alterno minhas tardes e noites (as manhãs dedico aos sonhos) entre habitar fantasias febris e esvaziar minha mente com pequenas distrações mundanas, adiando o mundo lá fora, que ainda assim, vez por outra, insiste em arrombar a porta da minha casa quando um vento mais forte de vida real a impele a se abrir sem que eu o permita.
Meus dias passam lentos porque são tediosos, e minutos de tédio escorrem devagar por entre os meus dedos enrugados depois de horas desperdiçadas na banheira cheia de água com sais importados da Índia que minha amiga imaginária trouxe da última de sua série de excursões excêntricas à procura de sua “verdade interior” (o que quer que isso signifique). Ela gosta de viajar, eu não. Eu gosto de inventar.
Invento-me amando e sendo amada, invento-me atravessando céus a mares e enfrentando toda série de perigos pra reaver um amor perdido, uma verdadeira heroína romântica. Inverto o jogo e invento-me cruel e desejada, com o coração congelado por uma sequência inifindável de desilusões amorosas. Invento-me piedosa e magnânima, bela e aventureira, altiva e inescrupulosa, misteriosa e vulnerável. Transformo-me numa massa crua e versátil a qual posso modelar à merce dos meus desejos mais íntimos e muitas vezes inconfessáveis.
Passo o tempo, e ele inevitavelmente passa por mim. Mas dói menos assim. Passatempo preferido.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Trying to get back



Passei por aqui pra lembrar que meu blog existe, pra me reler e principalmente pra me lembrar da existência desse "eu". Esse "eu" que escreve porque isso é uma das coisas que o torna singular, que o tira da mesquinhez enfadonha da rotina, que torna aquilo que chamam de dia-a-dia, por vezes, simplesmente extraordinário. Que lhe proporciona pequenos e peculiares momentos de extrema beleza. Momentos de vislumbrar a beleza em si e algumas vezes até quase tocá-la. Experimentá-la próxima com um estremecimento de prazer - e de medo, pois onde anda o prazer, anda o medo ali à espreita. Momentos de jogar palavras no papel - ou na tela - são momentos de experimentação do sublime. Quero ter novamente muitos destes momentos quebrando a linearidade tristonha da existência.
Esse "eu" vai voltar? Não sei.

(a imagem é um trabalho do Fred Einaudi: http://fredeinaudi.blogspot.com/)

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Penso, logo me irrito


Ontem à noite abracei e beijei um livro. Foi um gesto espontâneo, de pura gratidão por ele ter me proporcionado duas horas de leitura frenética e pleno deleite. E olha que eu não tô falando do Kama Sutra, nem do Delta de Vênus ou algo que o valha. Este prazer de tamanha intensidade muito poucas coisas, pessoas ou situações têm conseguido me proporcionar nos últimos tempos. E isto, infelizmente, inclui sexo.
Tenho bebido mais ultimamente. Porque quando fico bêbada não me importo mais com pequenos detalhes. Pequenas chateações. A bebida embota a visão e o pensamento, e os detalhes se diluem num todo caótico, se confundem com a paisagem do olhar míope da embriaguez. E todas aquelas pequenas gotas de irritação, frsutração, desgosto, com a existência, com a humanidade em geral – e alguns espécimes em particular, evaporam e liquefazem-se em litros e mais litros de cerveja que descem goela abaixo me fazendo por vezes até acreditar, em lindos e loucos instantes, que a vida é de fato algo simples, bom e belo.
Tenho me esforçado pra vencer a amargura e não me deixar arrebatar por raivas, tristezas, frustrações, etc, principalmente aquelas provocadas pelas situações do cotidiano e sua odiosa e tacanha irmã siamesa, a rotina. Eles são como pequenos demônios, daqueles que atuam nos mais baixos escalões do inferno, e vêm ao mundo apemas para chutar bengalas de velhinhos e roubar pirulitos de crianças. São medíocres, porém capazes de te tirar do sério como uma unha encravada ou a dorzinha de cabeça chata de uma ressaca.
Porém, o simples fato de ter que me esforçar pra “fugir” dos estresses me parece muito estranho, artificial. Intuitivamente acho que talvez fosse uma questão, quem sabe, de saber canalizar esses sentimentos, mas para que, para onde, como?... Me ponho a elucubrar.
Também, me incomoda um pouco o fato de estarmos vivendo uma certa ditadura do bem-estar. É imperioso que as pessoas estejam se sentindo bem O TEMPO INTEIRO, o tempo inteiro felizes, o tempo inteiro com um maldito sorriso no rosto, como cavalos nos quais avalia-se a saúde pelos dentes. As pessoas perseguem incessantemente essa meta, a busca da felicidade perene, alguns (muitos) cultuam loucamente o físico, outras acreditam no caminho espiritual, alguns (bem) poucos querem aliar as duas coisas. Tudo utopia. É uma profunda contradição a crença de que há possibilidade de se viver em estado semi-constante de alegria e bem-estar, quando todo um mundo conspira contra isso há seculos.
E como toda ditadura, inevitavelmente, se mantem na base da repressão e das patrulhas, na Ditadura do Bem-estar há as patrulhas, da alegria, do bom-humor, etc, cujos discursos vão desde o simples e apaziguador “Calma, tudo vai dar certo”, até a crença no poder do “pensamento positivo”. E ai de quem manifesar publicamente raiva, insatisfação, tristeza, mau-humor etc. De todos os lados vem um batalhão de patrulheiros, alguns condenando, outros desprezando, mais alguns te olhando com olhar de quem olha um louco, outros oferecendo palavras supostamente edificantes, o viciado em endorfina recomendando uma academia, o zen sugerindo a ioga, o simplório citando frases de auto-ajuda, o crente oferecendo a “palavra de deus”, o intelectual passando o telefone de seu terapeuta, o que não consegue se resolver nem com terapia oferecendo umas pílulas de Rivotril, e por aí vai... Sensações que são absolutamente inerentes à condição humana (um tanto o quanto miserável em grande parte) são vistas como condenáveis e inoportunas. “Sua revolta só faz mal a você mesmo” e clichês do gênero apenas simplificam a questão. Porque tudo tem dois lados (no mínimo), e se não houvesse sensação de mau-humor, trsiteza ou raiva, como poderia haver a constatação da alegria quando ela verdadeiramente se manifesta? Ou como sentir a profunda leveza daqueles momentos em que uma pequena, porém genuína satisfação parece fazer o complexo da vida parecer mais simples? Não se trata aqui, portanto, de fazer apologia do sofrimento ou da raiva ou da revolta, mas sim do direito a eles, a vivê-los como tem e como devem ser vividos, sentidos.
Este suposto estado de satisfação plena não existe, nem ao menos para os monges do Tibet, quanto mais para nós reféns de uma sociedade toda errada. O descontentamento momentãneo move muito mais coisas que o contentamento perene, estagnado. A insatisfação é necessária e necessariamente acaba por produzir mudanças (embora estejamos deixando cada vez mais escorrer por entre os dedos nosso poder de promover mudanças, num processo infelizmente irreversível). Quem (ainda) tem senso crítico, sente. E a raiva, tão mau-vista, nada mais é do que a consequência natural das constantes, incessantes sacanagens de todos os gêneros e graus a que somos subetidos no dia-a-dia. Quem (ainda) tem sensibilidade, sente.
Como disse antes, ultimamente tenho encontrado meu falso bem-estar no álcool, e um bem-estar genuíno, embora bem mais escasso, na leitura, na música, nos filmes. Mas a arte está em outro patamar, através dela ultrapasso os limites do simples “bem-estar” para atingir o sublime, que é a verdadeira experiência sensorial da beleza. Mas ela anda tão banalizada. E há muito menos arte e muito mais enfado, mesmice e mediocridade no reino mesquinho do cotidiano e da rotina.
(imagem: Milk http://www.myspace.com/logyu)

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Entre os Escombros...


"Não há mais nada. O amor venceu", foi o que eu disse à Rainha de Coração Partido. Ela me encarou com olhos de fria indiferença, e sorriu.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Me dá
Me dá teu sorriso
Me dá uma migalha do teu riso
Que eu fico sorrindo
Descasquei minhas unhas arranhando o tapete
Arrancando o vestido
Abrindo na pele com as mãos precipícios
Suplicando
Suplícios
Implorando
Implodindo edifícios
Explodindo em estrelas de artifício
Me dá um punhado de falsas promessas
De meias verdades
De incertas virtudes
Que eu sigo insistindo.