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terça-feira, 19 de agosto de 2008

Quem quer ser Gisele?

Ouvi falar de um ônibus que anda circulando nas noites de Chaotic City. Dizem que é um ônibus da linha 434, Grajaú-Leblon. Mas que também pode ser da linha 107, Central-Urca. A única coisa que se sabe com certeza é que todos que pegam este ônibus transformam-se em Gisele Bündchen. Pagam a passagem, passam pela roleta, e PUF! : Gisele Bündchen. Seguem ônibus adentro, rebolando as cadeiras. Homens, mulheres, crianças, anões... ninguém escapa.
Ouvi comentários de que Gisele tem sido vista em lugares improváveis. Atrás do caixa de um supermercado. Dirigindo um táxi. Esfregando o chão do Miguel Couto. Comendo pastel no Saara.
Especula-se que tudo isso faça parte de um plano colocado em prática por uma organização fundamentalista anti-humanidade, como forma de promover o fim definitivo da espécie humana. Este ônibus seria, portanto, o primeiro de muitos. Um test drive para verificar a eficácia da experiência. Afinal, segundo palavras supostamente ditas pelo próprio líder da tal organização, Giseles seriam incapazes de procriar entre si e, portanto, de gerar descendentes pra continuar perpetuando a espécie. Hum...Particularmente tenho minhas dúvidas. Dia desses assisti a um documentário sobre escorpiões no National Geographic. Descobri que há uma raça de escorpiões onde todos os indivíduos são fêmeas. Estava tão interessante que eu dormi e perdi a parte que explicava como, mas o fato é que elas se reproduzem. E muito. E se Gisele Bündchen for uma parente distante das escorpiãs de Lesbos? Daí os planos do líder funadmentalista amti-humanidade não só iriam por água abaixo, como dariam origem a uma nova espécie de seres humanos saradona e turbinada, com incrível capacidade de auto-reprodução! Assustador... Ele teria, inclusive, se defendido publicando um manifesto - ao qual, que fique bem claro, não tive acesso, apenas ouvi falar, à boca miúda - onde declarava, dentre outras coisas, que sua única intenção é acelerar o processo de auto-destruição já iniciado pela própria humanidade...
Há quem diga que não é nada disso. Que tal hipótese não passa de teoria de conspiração, delírio de gente paranóica. Supõem que o fenômeno do ônibus transformador de gente comum em Giseles Bündchens seja fruto da mente doentia de um velho cientista nazista, que vinha trabalhando às escondidas desde o fim da Segunda Guerra num projeto mirabolante cujo objetivo seria o de trazer mais beleza à humanidade através da uniformização radical. Comenta-se que, segundo o tal cientista, a diversidade, a mistura, estariam na raiz de um suposto "enfeiamento" cada vez maior dos seres humanos. Quem já ouviu falar das teorias dele costuma dizer que ele as defende com unhas e dentes em um brilhante tratado intitulado "Em Defesa da Uniformidade do Belo", onde ele enumera as vantagens políticas e econômicas da uniformização do ser humano em indivíduos de igual beleza, tamanho, forma e docilidade. Ah, e que ele teria desenvolvido um meio de reprodução assexuada das Giseles. Afinal de contas, sexo é uma coisa atrasada e contra-producente, que só serve pra atrapalhar a jornada do ser humano rumo a um futuro brilhante.
Na dúvida entre acreditar em uma ou outra teoria, prefiro acreditar nas duas. E por via das dúvidas evito o ônibus de madrugada. Mas fica a critério de cada um o próprio destino. Você pode querer continuar sendo você mesmo. Ou não.

sábado, 7 de junho de 2008

Rapidinhas da Chaotic City

Drummond Volta a Enxergar
Foram repostos essa semana, pela quarta vez, os óculos roubados da estátua do Drummond. Cada nova reposição custa aos cofres públicos R$3000.
Caso sintomático da situação em que se encontra a Chaotic City. Talvez Drummond preferisse ficar sem enxergar nada mesmo...

Promoção e "Pramocinha"
Os ônibus que circulam em Chaotic City (verdadeiros símbolos da civilidade e organização de nossa querida cidade)inovam mais uma vez, criando a "promoção maquiada". Ônibus com ar-condicionado circulam por aí, em pleno pré-inverno, com plaquinhas onde se lê: "Promoção: R$ 2,10". Eba! Promoção! Opa, peraí... R$2,10 é o preço normal da passagem! Quer dizer então que, no inverno, a gente paga o mesmo valor pra sentir três vezes mais frio???
Deve ser porque frio é chique , uma coisa assim meio européia, né?...

sábado, 24 de maio de 2008

Crônicas de Chaotic City - "Essa cidade me atravessa..."

Ponho os pés na rua e constato: típica manhã ensolarada de sábado. Luz estourada obrigando minhas pupilas preguiçosas a encolherem-se meio a contragosto por detrás dos indispensáveis óculos de lente escura. Vou pro trabalho.
Em manhãs de sábado como esta posso testemunhar um dos mais curiosos fenômenos inerentes à vida dos habitantes de Chaotic City: hordas de pessoas sumariamente (mal) vestidas amontoam-se em ônibus velhos, quase sempre dirigidos por sujeitos neuróticos, rumo à longas faixas de areia onde terão de disputar com outros milhões de indivíduos espaço ao menos suficiente para acomodar seus glúteos sobre a areia escaldante. Pode-se caminhar quilômetros em sinuoso e nada prático zigue-zague por entre cadeiras e mulheres deitadas - que paradoxalmente não admitem ser atingidas por alguns míseros grãozinhos inevitavelmente lançados pelas passadas dos transeuntes, embora estejam estendidas em meio à toneladas de areia - sem encontrar uma sombrinha sequer, a não ser a pífia e insuficiente provocada pelos guarda-sóis. Não fosse a presença do mar logo ali, poderia-se pensar que o Saara é aqui... Embora o curto caminho para chegar ao mar esteja tomado por centenas de sombrinhas, cadeiras, isopores e piscinas de criança, provavelmente já é um consolo saber que ele está ali, mesmo que quase invisível por detrás de tantos obstáculos.
Tais considerações povoam minha mente enquanto me espremo num canto do 433 lotado em pleno sábado onze e meia da manhã. Bom, nada de novo, a lotação é apenas um dos inúmeros aspectos da sinistra sina de milhões de seres obrigados a fazer uso do transporte público em Chaotic City.
O que me faz pensar na estranha relação que tenho com a cidade. Que eu poderia até chamar de simbiótica - se fosse saudável. A cidade me enlouquece, me estupra, me irrita, me deprime. Eu a hostilizo sem um pingo de compaixão.
Sinto-me, entretanto, intrínsicamente, organicamente ligada a ela, como se o fluxo caótico dos carros nas ruas desorganizadas fosse o próprio reflexo do pulsar incessante do sangue correndo em minhas vias, ops!, veias. O atrativo existe, embora intangível. Deve haver uma espécie de parentesco ancestral, um ponto invisível onde nossos DNAs, o traduzido e o intradutível, se fundem numa miscigenação incestuosa. A cidade me afugenta mas eu não fujo. Às vezes, em arroubos quase naïf, chego a crer que posso enfrentá-la com explosões de indignação incontida ou tentativas inúteis de apelo à supostos resquícios de civilidade. A cidade apenas escarnece da minha ingenuidade, com promíscuos tapinhas nas costas...
Após deixar pra trás a praia do Flamengo, o ônibus pega enfim o aterro. Ainda bem que existe o aterro, privilégio poder passar por ele, admirando os contornos do Pão de Açúcar.
Minha relação com a Chaotic City é completamente sadomasoquista.