terça-feira, 21 de abril de 2020

TRITROCENTÉSIMO DIA DA QUARENTENA

Depois da noite semi-insone me afogando em masoquismo emocional e auto-sabotagem, eu acordei meio dia, dormi por cinco horas, sonhei uns sonhos MUITO loucos, mas no final do sonho tinha uma pessoa que eu amei loucamente numa outra era e por quem tenho muito carinho apesar da distância, me dando uns conselhos muito maravilhosos (que eu não lembro quais foram, mas fizeram muito sentido naquele momento).

O acordar foi mal-humorado porque o interfone tocou e eu queria ter dormido mais umas duas horas, e eu meio dormindo meio acordada achei que era uma ligação de São Paulo e fiquei como, virada no Jiraya, que São Paulo te ligando no fixo cês já tão ligados né. Mas eram guloseimas, presente de um amigo lindo pro meu filho, então tá mais do que maravilhoso, bora acordar né.

Aí eu vi que ainda tinha uma réstia de sol no quintal, tirei a calça e tomei um solzinho nas pernas, de calcinha e blusa e quase pensando em pagar peitinho e proporcionar alguma distração pros meus vizinhos enquarentenados, mas aí lembrei que tenho um vizinho escroto que cheira pó a noite toda e fica gritando, quebrando coisas, já agrediu mulher e travesti e decidi que ele não merece essa visão do paraíso. Enquanto tomava meu copo de sol tal qual um lagarto Manoeldebarriano, escutava o filho de um puliça no telefone aos berros dizendo que tinha acabado de voltar da PRAIA! Isso mesmo que cês tão lendo, eu tô aqui abrindo mão dos meus rolés, abraçando e recebendo visitas de um total de ZERO amigos e me deprimindo com a quantidade de pessoas MORRENDO e o energúmeno tava na praia. Perdoem-me os outros vizinhos que tiveram que se contentar com minhas pernocas, minha camiseta surrada e minha calcinha de vovó bege zuper zenzual (ainda os considero sortudos, deixa o tal ir à praia de novo que eu boto os peitinhos pra jogo huahuahua).

A vitamina D me vitaminou e eu coloquei aquele disco irado do Air e fiz um alongamento daqueles que estala tudo e estica até as pregas do seu cu (se você ainda tiver alguma, claro). Tirei as teia de aranha do bambolê e coloquei a playlist de eletroswing (mais swing que eletro) no Spotify pirateado, bamboleei meus bofe pra fora e a serotonina bateu, deu onda e eu lá toda performática - eu podia dizer desengonçada, mas achei que performática combina mais com meu charme sagitariano... Tentei fazer um vídeo da bamboleada mas minha gata derrubou o celular, o que me provocou um mini-enfarto, mas tava tudo bem com o celular, embora o vídeo tenha ficado ó... uma bosta, tendo sido devidamente enviado ao limbo dos vídeos vergonhosos.

Ainda me sentindo a Farrah Fawcett num VHS dos anos 80 (essas referências de cacura sempre denunciam minha idade) eu consegui bater meu próprio recorde fazendo uns 8 agachamentos, 3 abdominais e umas 4 flexões (juro que foram flexões mesmo, não bozoflexões).

Me joguei na rede e olhei pro céu e pensei "vyado, tá um azul de Van Gogh nessa porra desse céu" e eu acho que a combinação de serotonina com vitamina D deu onda MESMO e putaquepariu QUE CÉU AZUL DA BUCETA! Quero ver eu ter insônia essa noite!!! Vou fazer PRANAYAMA até cair o nariz e VAISIFUDÊ RIVOTRIL - não, péra... Menas.


domingo, 19 de abril de 2020

Lusco Fusco


Teve um momento, suspenso no tempo,
No lusco-fusco entre o abandono incessante do dia e o aproximar lânguido da noite, insinuante,
Que a vida fez tão, mas tão pouco sentido que chegou a doer, uma dor física, uma dor tão forte, uma dor tão grande, uma dor sufocante, uma dor sem saída,
UMA DOR.
Eu apertei com os braços minha cabeça com força
Força força MUITA força
pra estraçalhar meu crânio em cacos, estilhaços
Explodir minha cabeça em trinta mil pedaços
Espalhar pelas paredes gomos pegajosos do meu cérebro
Fazer saltar das órbitas meus olhos molhados de lágrimas
Até jorrar pelo mundo esse rio negro, caudaloso e sem fim
Que há em mim.


sexta-feira, 17 de abril de 2020

ENTÃO NÃO É NATAL


Trigésimo quarto dia de quarentena. Minha mãe sugeriu montar a árvore de Natal...

Pensei : “Por que não?” Antecipar o Natal...
Daí antecipamos o ano novo também.

Quem sabe assim a gente engana o tempo?
Vai dormir mais cedo e acorda em outro momento?

Me pus a imaginar um Natal fora do tempo... com meus avôs e avós,
Todos já se foram, mas sentados ali à mesa,
em uma realidade paralela.

Quero achar o buraco de minhoca que me leve diretamente para ela.
Porque por aqui já deu de distopia.
E estamos apenas no trigésimo quarto dia.

quinta-feira, 16 de abril de 2020


Um poeta uma vez afirmou 
Que todas as cartas de amor são ridículas.
Pois agora eu afirmo, sem tirar nem pôr,
QUE SÃO BELÍSSIMAS TODAS AS CANÇÕES DE AMOR.
TODAS TODAS TODAS
As que falam do amor que não deu
As que falam do amor que nasceu
As que falam do TANTO TANTO TANTO
que quem perdeu um amor já sofreu.
As que falam do pranto pelo fim do que viveu
Daquilo que, talvez, dentro de quem amou
Morreu.
Do amor que nas curvas de uma estrada se perdeu
E das coisas que a gente, que ainda ama,  
Não esqueceu.
As de rima pobre, como esse poema,
As que nem tem rima
E isso não é um problema
Porque no fim das contas,
No fim do dia,
Qualquer forma de amor, para o poeta
vira poesia.
TODAS AS CANÇÕES DE AMOR,
MEU AMOR,
SÃO BELÍSSIMAS.
O que nos leva à duas simples conclusões:
O amor romântico é uma droga
Mas produz belíssimas canções.

(imagem Chiara Bautista aka Milk) 

terça-feira, 7 de abril de 2020

Meio Namastê, Meio Namastreta


Deste lugar de raiva onde me encontro, olho-me no espelho e não me reconheço. Serei eu mesma essa pessoa que carrega tanta fúria por detrás de pálpebras inchadas? Eu quero descansar. Quero me livrar desta mochila recheada de mágoas. Quero ser livre. Quero dançar.  Quero finalmente poder voar. Mas, por agora, não posso.

Eu não sou ódio. Eu não sou rancor. Este lugar onde estou não me define. Se estou aqui, neste momento, o que posso fazer é apenas mudar a direção do meu olhar. Olhar para dentro, mas também para o infinito. Porque olhar para dentro já é olhar para o infinito. Olhar para o todo, imenso e indissolúvel, e entender-me uma nano-partícula no universo em expansão, e ao mesmo tempo eu mesma do tamanho da expansão universal. Olhar nos olhos do abismo, por mais assustador que pareça, e encará-lo em toda sua profunda frieza abissal.

Um dia ainda pretendo absorver integralmente a ideia de que a vontade e o desejo do outro não me pertencem. Que nada me pertence. Nem meu corpo me pertence. Nem meus sonhos me pertencem. Me pertence apenas a possibilidade da aceitação deste não-pertencer. Todas e todos somos seres livres, pois para isso fomos feitos.

Eu me cuido e você me cuida. Princípio fundador. Mas nunca exigência. Será justo obrigar o outro a carregar o fardo das minhas expectativas? Minha busca é por bastar-me a felicidade que o cuidado com o outro me traz, no limite mesmo entre o reconhecimento e a dissolução do ego. Mas ainda há um longo caminho pela frente, e não é uma estrada de tijolos amarelos.

Por agora estou aqui nesse lugar – onde coabitam raiva, mágoa, desilusão, desamparo, tristeza, dúvida, confusão. Tenho pesadas bolas de apego emocional presas aos meus tornozelos. Sabendo que não é a este lugar que pertenço, ao mesmo tempo procuro entender porque acabei vindo parar aqui. Entendo a necessidade desta estadia dolorosa. Estou fortemente amarrada a uma montanha-russa emocional. Comprei um ticket para cada uma das atrações macabras deste parque de des-diversões, este circo de horrores. Ninguém nunca disse que o fim de uma tão longa jornada emocional seria uma praia deserta em um belo pôr-do-sol, mas estar neste lugar onde só há tempestade constante é muito mais assustador e triste do que eu jamais poderia prever. Ao mesmo tempo, sei que este embrulho no estômago é um sintoma da queda, e que se num dia eu despenco vertiginosamente, no outro eu subo e consigo encher os pulmões de ar antes de submergir novamente – e entre um e outro existem momentos de consciência da efemeridade não só desta dor, mas da própria vida e tudo aquilo que a constitui. Afinal de contas, um passeio de montanha-russa não pode durar para sempre, não é mesmo? Que no fim do dia um vento forte sopre tudo isso para longe de mim, e que ao olhar para trás eu perceba este lugar como uma ilha, distante e perdida em algum lugar do passado (mas não a ilha de LOST, porque eu odiei essa série e me recuso a fazer analogia com ela).