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terça-feira, 5 de janeiro de 2010

No fim... só


Obrigada, querido. Fiquei bêbada com duas cervejas, morri de tédio e tentei em vão acompanhar o papo do casal apaixonado na mesa ao lado.
Nada que uma boa dose não cure. A minha tendência à depressão, não a paixão do casal, que fique bem claro. (Será que é inveja esse amargo no céu da boca?). É isso: uma boa dose de auto-crítica e depois de cachaça, pra equilibrar. Acho que comigo é assim que funciona. Ou disfunciona?... Essa minha mania de auto-análise ainda acaba me matando. Sempre acho que posso dar uma explicação melhor pras minhas próprias neuroses do que um cara que passou anos estudando pra isso. Engraçado pensar nisso agora porque foi você o primeiro a me dizer. E, ironicamente, aqui estou eu: puta da vida contigo e te parafraseando! Sintomático?
Sinto mesmo é pena quando olho ao redor e percebo que além de mim há mais dois solitários. Um na mesa em frente à esquerda, um recostado no balcão. Um bebe cerveja como eu, o outro vira uma dose de algum destilado forte. Por um segundo passa-me pela cabeça a idéia de chamá-los a juntar-se a mim, solitários, rejeitados, abandonados, uní-vos! Idéia rapidamente banida por um resquício de bom-senso que o último gole de cerveja não conseguiu - sei lá por que milagre - aniquilar por completo.
Toda essa fantasia tola na verdade serve apenas pra adiar o momento de encarar a dura realidade: não tenho dinheiro pra pagar a conta. Sentei, esperei por você, bebi, e não tenho dinheiro. Esperava que você pagasse a conta, imaginando - santa ingenuidade - que era o mínimo que poderia fazer por mim a essa altura do campeonato.
Peço mais uma pra pensar... ou pra parar de pensar?
Você não veio. Você não vem mais, é fato. Tô aqui há duas horas e os solitários de tão bêbados já me lançam olhares no mínimo intimidadores, e o casal da mesa ao lado já foi dessa pra uma provavelmente muito melhor. Encaro o relógio de madeira à minha frente e percebo que o ponteiro dos minutos gira a uma velocidade bem acima do normal. O tempo tá passando mais depressa, parece que perdeu a graça a brincadeira de me torturar. A diversão agora é fazer chegar mais rápido o momento do bar fechar, quando eu vou ter que explicar prum sujeito suado e mal-encarado com um bigodinho gorduroso por que diabos sentei num bar e bebi sem ter dinheiro pra pagar.

(imagem: "A Persistência da Memória", de Salvador Dalí)

sábado, 1 de agosto de 2009

Retorno

Você parado ali na porta da frente, olhando pra mim com olhos inchados – de raiva, bebedeira ou sono atrasado?...
Despertei subitamente do estado de vigília que sempre me assolava quando me punha a esperar – uma espécie de transe, de quase sono sem sonhos; seus olhos tontos, olhos perdidos...
Me aproximei de você pronta a te dar um abraço, te levar pra cama, te cobrir carinhosamente, como só uma mãe o faria, talvez até cantarolar uma velha canção de ninar - como nos bons tempos, lembra-se? Eu mesma não consigo mais lembrar...
Você parece tão perdido em devaneios, o olhar tão insano, olhando através do meu corpo, através das paredes, dos velhos quadros empoeirados, vislumbrando antigos mundos detruídos, civilizações ancestrais dizimadas pelas chamas ou pela fúria de mares revoltos, impérios destroçados pela fome, pela peste ou pela guerra... Tudo isso eu via refletido nos seus olhos, e a ansiedade de te amparar, de te embalar, de te confortar e espantar seus pesadelos crescia dentro de mim na tentativa de vencer a letargia que dominava meu corpo e meu espírito.
Eu estava hipnotizada. Hipnotizada por aquele seu olhar, lunático e inflamado, vagando junto com ele por tantos mundos perdidos, enxergando através dos seus olhos todas as atrocidades cometidas ao longo de todas as eras – os mais requintados métodos de tortura, os mais diversos tipos de execuções sumárias, centenas de cadáveres empilhados sobre ruínas de destroços mal-cheirosos, batalhões de crianças famélicas com cabeças desprovidas de rostos - tudo passava diante de mim através dos seus olhos, fazendo-me sentir o que você sentia, todo o seu desespero, todo o seu desprezo pela humanidade, seu flerte constante e apaixonado com a Morte. Por um instante pude compartilhar com você, e por fim compreender, a misteriosa atração que a velha senhora exercia, o desejo quase incontrolável de atirar-me para ela e ser envolta em seus braços frios, deixando-me embalar por sua canção derradeira.
Mas alguma coisa estranhamente distante dentro de mim apagou tais devaneios, talvez fossse a própria essência da vida lembrando-me que era apenas você, o ser que eu amava, e não aquele anjo do apocalipse de olhar inflamado, a expressão refletindo a da própria Morte. Vencendo num mesmo impulso o torpor da hipnose e o terror das visões compartilhadas, consegui finalmente mover-me em sua direção, e embora você estivesse a talvez uns dois metros de distância de mim, meus pés descalços percorreram longos vales e atravessaram montanhas, sentindo as pedras arranhando-lhes as solas, a grama molhando-os, a terra entrando-lhes por entre os dedos. Nunca aquele vestíbulo havia se estendido por tão longas distâncias à minha frente.
Finalmente te alcancei – músculos exauridos, pernas trêmulas - ; por quanto tempo teria estado te esperando? Horas, dias, semanas, ... simplesmente não conseguia me lembrar, porque não tinha mais importância, você estava ali, o terror incondicional do seu olhar cessara, e você agora me olhava nos olhos e seus olhos pareceram enxergar minha alma, pareceram ver a ansiedade que a dominava.
Sem mais poder me conter, estendi os braços para você, e você se aproximou, mais devagar do que de costume, e de repente uma centelha de dúvida acendeu-se em algum lugar de meu espírito. Ainda havia algo de insano e inescrutável no seu olhar –“algo de podre no reino da Dinamarca”, murmurou um Hamlet decadente das profundezas do meu inconsciente; mas tudo não durou mais que uma fração de segundo... estávamos abraçados, e a dúvida em minh’alma dissipou-se no calor daquele abraço, e todo o meu corpo regozijou-se daquele contato, e o meu prazer foi tão intenso que quase não pude sentir o toque frio e cortante da lâmina que deslizava em meu pescoço, cortando-me a garganta, fazendo saltar da minha jugular um jorro quente e úmido que inundou nosso abraço em uma torrente vermelha e pulsante. Só pude sentir a frieza da lâmina quando já era tarde demais, e aceitei o destino que você me impingiu com estranha subserviência, deixando o peso do meu corpo desabar sobre você, satisfeita por morrer em seus braços, a vida saindo toda de dentro de mim através do corte em minha garganta, esvaindo-se naquele jato morno, rubro e pegajoso. Nunca, até aquele instante, poderia ter imaginado que a vida, ao abandonar o meu corpo, teria um aspecto tão orgânico, tão imanente. O momento da morte nada tinha de metafísico: era apenas sangue jorrando por uma veia cortada.
Mesmo quando a visão sucumbiu, e os outros sentidos aos poucos também, esta foi a impressão que ficou. Não havia mais nada. Você me matou.

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Sonhos

(I)
Nossa casa/abrigo fica à beira-mar. Não de frente para a praia, mas sobre um deque que avança mar adentro. Não é uma praia deserta, é uma praia urbana, como uma Ipanema em um lugar fora do mundo.
Somos três vivendo ali. Passando uma temporada talvez, há um clima no ar de "isto é especial e não vai durar pra sempre". Mas ao cair da tarde saímos apenas eu e ele para ver de dentro do mar o espetáculo dos fogos de artifício. Os fogos estouram bem longe, no horizonte, olhamos e o sentimento mútuo é de maravilha, de estar compartilhando algo realmente incrível. Saímos da água, pessoas caminham no calçadão sob a luz dos postes que acendem todos ao mesmo tempo, nós bebemos e rimos e celebramos o encanto daqueles momentos. Passamos a noite assim, na praia bebendo e rindo e trocando olhares que dizem muito. Há uma forte tensão sexual no ar, mas não nos beijamos. Parece que não é preciso.
Dia seguinte. Acordo cedo e me deparo com os dois, ele e ela, tomando café-da-manhã na cozinha. Estou feliz, tudo é muito luminoso. Olho meu rosto no espelho do banheiro e ele me parece estranho. A pele está descascando por causa do excesso de sol, e há manchas meio escuras como das pessoas que têm vitiligo. No entanto me acho especialmente bonita naquele momento, com meu cabelo preso num rabo de cavalo com cachos que chegam à altura dos ombros. Ponho uns óculos escuros de armação branca e contemplo a imagem no espelho.
Volto à cozinha onde os dois estão rindo. Ele então comenta: "Eu e XXXX (o nome é pronunciado de forma ininteligível) podíamos ter ficado ontem... acho que ficamos"... eu respondo com um sorriso e passo por trás dele dando a volta pra chegar à geladeira. Percebo então sobre a mesa papéis de polenguinho amassados, e me lembro imediatamente dos três que escondi ontem na geladeira, atrás de um pote de mostarda de dijon, embaixo de um pacote de queijo ralado, em meio às abobrinhas na gaveta de legumes. Sinto um misto de raiva e desespero me subindo à cabeça (parece que polenguinhos são mesmo um tesouro por aqui), mas uma segunda olhada em direção à mesa me revela que não são polenguinhos mesmo, mas algo parecido, como polenguinhos de marca genérica (o nome da marca era Regina...?). Respiro aliviada.

***

(II)
O narrador, de personagem, passa a observador. Mas pode, às vezes, ver através dos olhos do protaganista, e sente o que ele sente o tempo todo, como um deus onisciente. O protagonista, por sua vez, é um rapaz que deve ter uns vinte anos e é muito bonito. Tem cabelos louros que à primeira vista parecem curtos, mas logo percebe-se que ele mantem um estranho rabo de cavalo que quase sempre repousa sobre o ombro esquerdo. Ele está num navio rumo a Cingapura. O objetivo de sua viagem é reencontar a moça que é seu grande amor (é uma aventura romântica). Mas o navio em que ele viaja é uma espécie de embarcação que carrega ilegalmente através dos mares gente que não tem condições de arcar com as despesas de uma viagem dessas. Ele observa o convés do navio e a cena que vê é bastante grotesca. Todas as centenas de pessoas ali presentes são incrivelmente desformes, e no entanto cantam e dançam, e a cena se parece com um festim medieval povoado de demônios, como um quadro de Bosch. Há inúmeras psicinas de diversos tamanhos espalhadas por ali, e muitas daquelas pessoas sentam-se ao redor com as canelas na água. Ele observa uma dessas piscinas, onde um homem amarra o último dente que tem na boca ao corpo de uma enorme carpa, e quando esta salta na água leva consigo o dente amarrado ao cordão, para gozo e delírio do pequeno grupo que observa a cena. Nada daquilo parece real. Ele se aproxima da beira de uma piscina grande e olha para a água. Um tubarão de tamanho descomunal pula de repente para fora, num susto, e cai no chão se debatendo, enquanto algumas pessoas correm assustadas. Ele não corre mas mantêm-se inerte, paralisado pelo estranho fascínio que a visão do tubarão lhe proporciona. Quando dá por si percebe, cada vez mais perturbado, que o enorme animal é feito de espuma, como um fantoche gigante, e de dentro dele sai um rapaz, que vem caminhamdo em sua direção. O rapaz é simplesmente a coisa mais bonita que ele já viu em toda a vida, e o momento é impregnado de uma tensão que é quase palpável. A beleza do garoto saído da boca do tubarão é diferente de tudo que ele já vira, diferente inclusive da sua própria beleza, que é mais dentro do padrão, mais lugar-comum. O garoto-tubarão é bem magro, seus cabelos são pretos, seu andar é felino, seu olhar é carregado de uma energia feminina destruidora, e quando os dois estão frente-a-frente eles se encaram, o garoto-tubarão passa as costas da mão pelo rosto do protagonista, ele percebe-se neste momento completamente arrebatado, louco de paixão, e nada mais importa. (imagem: THE HARROWING OF HELL -HIERONYMUS BOSCH)

sábado, 3 de janeiro de 2009

01/01



Ela vê os fogos e não entende. Não entende o porque de sentir-se tão vazia de qualquer emoção, totalmente alheia à comoção geral à sua volta, à profusão de beijos, abraços, cascatas de espumante, desejos de renovação. Não pode evitar a lembrança dos reveillons da infância, quando os fogos estouravam bem próximo às pessoas na faixa de areia, galáxias inteiras vindo em sua direção como se fossem tragá-la, provocando as mais vertiginosas sensações, euforia e um friozinho na barriga - ok, de vez em quando alguém se queimava... mas era tão, tão bonito...
Nesta noite os fogos estão distantes, assim como está cada vez mais distante a menina de tranças e olhar embasbacado voltado pro céu onde explodiam supernovas. A menina de então sentia o corpo inteiro inundar-se de emoções, a cabeça de sonhos, o peito de ternura, os olhos de expectativa, os ouvidos da música que trazia a promessa de infinitas possibilidades abrindo-se à sua frente em mais um ano de sua vida que brotava e crescia inebriada de desejos.
A mulher deste primeiro de janeiro de mais um ano do terceiro milênio sente-se estranhamente triste e não sabe muito bem porquê. Seu corpo parece uma casca, um invólucro vazio de conteúdo, jogado de lá pra cá ao sabor dos empurrões dos milhões de espectadores da queima de fogos. Na cabeça as lembranças sobrepõem-se aos sonhos, tornando-a melancólica. No peito um aperto, a ternura quase totalmente sufocada pelas costantes restrições impostas pela vida. Os fogos agora parecem apenas a reprise de um filme antigo e sem graça e os goles de espumante gelado dão algum alento à garganta ressecada que engoliu em seco ao pensar nisso tudo. E embora abrace os amigos e repita pra cada um deles os votos - sinceros – de um feliz ano novo, sente-se irremediavelmente só em meio à multidão que comemora em uníssono.
Ela pensa em vida e em morte. Pensa em sua mãe e em seu filho. E pensa em si mesma como mais um elo neste estranho encadeamento de acontecimentos que se estende pra trás e pra diante com a mesma inconstante imprevisibilidade. Ela pensa em como seria bom se os desejos de renovação de tanta gente tivessem mesmo o mágico poder de alterar para sempre não só o seu estado de espírito, mas também o estado das coisas em geral, as próprias condições em que se encontram os milhares de seres humanos que perambulam a esmo sobre a face do planeta combalido terra. Ela fecha os olhos e tenta com toda a vontade de que é capaz concentar o pensamento em alguma coisa verdadeiramente boa e bela - Saramago e Fernando Pessoa, Florbela e Clarice, Beethoven e Vinícius, Mayakovski e Mallarmé, Neruda e Chico Science, Picasso e Frida Kahlo, Pasolini e Manoel de Oliveira, Almodóvar e Pina Bausch... – e resolve parar por aí porque há tanta beleza no mundo que chega a ser apavorante viver, e a beleza profunda nos dá a dimensão da própria existência, experimentar a beleza nos aproxima vertiginosamente da morte. Ela sente o nó do peito sufocado apertar-se ainda um pouco mais, e é impossível conter as lágrimas que já há algum tempo queimavam no canto dos olhos.
Mas todo esse pensamento junto não dura mais que fração de segundo. Ela também quer comemorar. Ela quer deixar-se levar pelo apelo quase irrestível do êxtase generalizado, exclamar embevecida a cada nova explosão a colorir o céu de Copa. Ela quer e precisa disso, ela precisa esquecer, esquecer-se, ser esquecida, ela precisa mergulhar no gozo anõnimo das multidões embriagadas, embriagando-se ela mesma da loucura e dos sonhos alheios. Ela esvazia a mente e deixa que o espetáculo de luzes tome conta dos olhos e a confusão de sons misturados saídos de milhões de bocas entreabertas transforme-se em música a encher os ouvidos, e todo aquele momento impreguina-se de imanência mundana tornando-se um amontoado de sensações simplesmente prazerosas.
Ela chora mas não há mais agonia. A tristeza subsiste e continua a incomodar, mas ela balança a cabeça expulsando momentaneamente os pensamentos sombrios. E sorri desejando profundamente que ainda haja uma boa reserva de momentos felizes para ela e para todos aqueles a quem ama, todos os seres que respiram com ela esse ar já não tão puro, mas ainda capaz de renovar esperanças.

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Blues cotidiano

Escovo os dentes no banho. Choro embaixo do chuveiro pra esconder as lágrimas de mim mesma. A mistura de ressaca com tpm é quase sempre indigesta... talvez amanhã o mundo volte aos eixos, talvez não, quem sabe?... maldita moral, maldita culpa. Um dia aprendo a viver sem (quando?)... Meto a tesoura nos cabelos, terapia eficaz.
Pausa pro café. Cafeinômana, duas xícaras, açúcar e vapor, mais um pouco de açúcar, glicose é afago pra alma. Momento suspenso no fio do tempo... momento de sentar no chão da varanda lateral e observar o casarão vermelho imponente no alto do morro, bebericando devagar o café doce/amargo.
Em cima da hora acabo vestindo a saia guarda-chuva que levanta com o vento. Na rua, ventania pré-tempestade, revoada de folhas, algazarra do ar em movimento, e a minha bunda de fora na porta do banco, apertando inutilmente a droga do botão com uma mão, empurrando a porta com a outra, tarde demais pra evitar a gargalhada dos moleques que passam...
Chove e eu choro embaixo da chuva só pra não perder o hábito de brincar de esconde-esconde. Ao menos a ventania parou, e a saia vai continuar no lugar até eu me distrair e passar em cima de um desses bueiros que sopram de baixo um ventinho intermitente.
Refúgio na livraria. Fugindo da chuva , do aperto no peito e da abstinência de cafeína, bebo o café em golinhos calculados, minúsculos, pensamentos tolos, planos de dominação do mundo, um livro do Fernando Pessoa. um pouco de saudade de alguém do outro lado do mundo...
Quando vejo que a chuva apertou eu saio. Saio e deixo a chuva levar de enxurrada os pensamentos tolos, os planos infalíveis, um restinho de culpa, leva a saudade chuva!; não, não levo. Pensando bem, até que essa saudade é boa de ter, através dela ele visita meus sonhos onde passeamos lentamente por um boulevard parisiense (nunca estive em Paris, mas no sonho ele me mostra como é...), ou tomamos café no foyer do CCBB e rimos destilando rabugices, ironias, devaneios e demências...
Molhada, a saia que antes queria voar se cola ao meu corpo, e o sentido do tato sobrepõe-se aos outros graças a esse contato, eu corro mas não quero mais fugir, correr apenas ponto. Pra um lugar que não existe porque ainda não foi inventado. Ainda não foi inventando lugar onde caibam meus sonhos, meu desejo de liberdade, meu desejo de delírio, meus desejos todos enfim, meu Desejo que é um deus sem templo a habitar.
Abro a porta de casa, me dispo das roupas encharcadas e dos devaneios fortuitos, devia sentir frio mas meu corpo queima, entro no banho, escovo os dentes, choro.
Bebo o café mais amargo do dia e mergulho na profunda nostalgia que habita as tardes filminho-edredom...

terça-feira, 28 de outubro de 2008

Quatro bêbados

Somos quatro bêbados, eu, ela, ele, ela. A música da velha juke box soa onírica, talvez porque venha de um passado distante - custa-lhe atravessar a borda do tempo. Às vezes ponho moedas e desejo algo mais que a melodia suja arranhada no vinil da vitrola. Desejo um pedaço dele, ele um pedaço dela, ela um pedaço dele, ele um pedaço de mim. Nossa roda ciranda etílica quase sempre ensandesce e termina e começa e rodando a minha cabeça não consegue mais fixar os olhos dele e para nos dela e volta pros dele e acaba nos dela novamente... São castanho-claro-verde-embotados. São raros.
Ele acende um cigarro, traga, eu tomo um trago, ela bebe um copo, ele canta junto a melodia ancestral, eu também canto, eu sempre canto, todos cantamos quando estamos bêbados, todos cantamos agora.
Só quem escuta é Seu Osvaldo, que trouxe a juke box de um passado remoto e instalou aqui ao lado da cozinha, pra alegria dos bêbados, pra alegria das putas, pra alegria dos cães, pra nossa alegria, lentamente embalada ao som das notas espalhadas, esparramadas em nossos corpos que se esbarram e se tocam movidos unicamente pela certeza de estarem fadados ao máximo possível de união permitida aos seres de carne, sangue e sonhos quentes. Seu Osvaldo é testemunha ocular do momento exato em que somos arrebatados, confiamos nele. Somos foragidos do mundo-de-fora tentando esquivar-nos de fios débeis de sol que escorrem através das fendas miúdas da janela fechada. Somos quatro bêbados tentando ser um, tentando ser três, tentando ser dois, voltando a ser quatro... eu, ele, ela, ele, não necessariamente nessa ordem, nesse tempo, nesse espaço. Somos som, movimento, somos fúrias, tesão, somos o momento em que o objeto lançado ao alto pára suspenso por um fio invisível preso ao infinito, somos a soma de inúmeras frações de desejos varridos pra debaixo do tapete das almas ao longo dos séculos.
Somos tudo isso, ao mesmo tempo, agora, sempre. Fomos, somos e seremos a república etílica-onírica da juke box. Um não-lugar num tempo-espaço que existe apenas quando a música toca e nós a habitamos. Bebemos, cantamos e dançamos unidos pelos laços da sagrada bebedeira sacramentados por Seu Osvaldo, que abastece nossos sonhos com mais uma saideira, desejando espertamente que a fonte nunca seque. Mesmo que o sol já vá alto lá fora, quatro bêbados brindamos, eu, ele, ela, ele. Mais uma moeda, por favor, the show must go on.

terça-feira, 2 de setembro de 2008

Cinza e pó

O momento de olhar praquilo tudo e perceber que quase nada se distingue em meio à massa disforme, carbonizada. Quase tudo cinza e pó. Pequenos vestígios de plástico retorcidos formam estranhas esculturas, desafiando minha memória que insiste na tentativa quase sempre vã de recordar estes objetos em sua forma original. A ação do calor sobre o plástico é estranha e devastadora, mas olhando agora pra restos de pratos de acrílico e potinhos "tupperware", ouso dizer que é bela. Assustadora, mas terrivelmente bela. Penso em guardar os restos destes objetos, souvenirs macabros. Imagino que dariam uma boa instalação. Sempre tive uma queda pela arte contemporânea. Qualquer um pode ser artista. Por que não eu? Verdade que sempre fui um reles vendedor de banca de jornal do centro da cidade. Vocês podem até achar legal esse papo de ter todas as notícias do mundo ali, à mão. Mas o fato é que você se cansa. Cansa de tanto acesso à informação. Não quer mais ler aquele monte de notícias manipuladas. Um dia viro artista de vez, tenho meia dúzia de idéias que acho que podem colar. Uns lances com vídeo-arte...
Na verdade cheguei tarde demais. Os bombeiros já estiveram aqui, apagaram o fogo. E a perícia chegou surpreendentemente rápido, analisando todos os vestígios. Se conseguiram encontrar alguma possível prova das causas do suposto acidente, a esta altura já estão lá, preparando seus laudos. Tive medo de me aproximar demais, de ter de encarar a cena que encaro agora, remexendo nos escombros enegrecidos até ficar coberto eu mesmo por um pó preto que se gruda à minha pele de forma aparentemente ireversível. A imagem do caos em que se transformou sua casa imprime-se em minhas retinas irritadas. E você, ou o que quer que possa ter sobrado de você, não está aqui. Devem tê-la levado, sem deixar para mim sequer um farrapo de vestido queimado. Era algo que eu gostaria de guardar. Como lembrança.
Lembrança desta noite. Daquele vestido verde decotado que sempre que você usava eu ficava com uma vontade louca de te comer. Você sabia disso e vestia ele de propósito toda vez que queria me chantagear. Você nunca valeu mesmo o prato que comia, não passava de uma vadia peituda que sabia exatamante o que fazer para manipular os homens, como sempre fez com todos os outros antes de mim.
Você abriu a porta e me encarou com aquele seu olhar vazio de estátua grega. Me emputeci na hora. Me convidou pra entrar. Estava tomando uma taça de vinho. Aceitei a taça que você me ofereceu, sentando no sofá e olhando pros seus peitos. Visão que, junto com a primeiro gole do vinho, ajudou a arrefecer a raiva que eu sentia.
"Cê sabe que eu faço tudo por você", comecei."Até mesmo me despencar até aqui às duas da manhã."
"Sei. Sempre foi assim, né? Eu chamo e você vem..." (Você tentou, sem sucesso, imprimir um ar de descontração ao comentário...)
"Pois então. Seu servo mais fiel está aqui novamente. O que você tem pra me dizer que não pode esperar até a luz do dia?"
"Vou embora. Meu vôo sai às sete."
"Brasília?" retruquei, já adivinhando, "vai voltar praquele filho-da-puta?"
"Sei que é difícil pra você entender... mas estou ligada a ele por laços maiores do que os estabelecidos pelas relações humanas. É um lance cármico, sabe? Agora tenho certeza..."
"Mas esse cara quase te matou!" (falei isso ainda sussurrando, tentando processar o absurdo do que você acabava de me dizer) "Cê saiu de lá, largou família e um bom cargo no governo pra fugir desse sacana! Que papo é esse de 'lance cármico'?"
"Querido, Madame Cileide confirmou tudo! Eu e Clécio temos pendências de outras vidas pra resolver."
"Como é que você pode acreditar nessa merda? Uma pessoa como você, filha de desembargador poderoso em Brasília, que estudou nos melhores colégios, formada em direito... Só falta me dizer agora que foi abduzida e tá grávida de um ET!!!" (a essa altura eu já estava gritando...)
"Por isso nunca quis te contar. Porque sabia que você não me levaria a sério... Ficaria aí com esse seu jeito, fazendo piadinhas de mau-gosto..."
Esse foi o momento da explosão. Parti pra cima com tudo. Eu estava decidido a te segurar aqui, nem que pra isso precisasse te amarrar ao pé da mesa. Você correu e se trancou no banheiro, choramingando e me chamando de covarde, canalha, escroto, e mais um punhado de adjetivos tão carinhosos quanto.
Passei pela cozinha e fui até a área de serviço, procurando algo que eu pudesse usar pra te amarrar. Se você insistisse em ficar trancada no banheiro eu arrombava a porta e pronto. Te amarrava lá mesmo. Ouvi um grito, me virei e vi você ali parada na porta da cozinha.
"Eu nunca te amei, imbecil. Era tudo fingimento. Usei você enquanto serviu aos meus propósitos, e agora te descarto porque não me serve mais. Você não passa de um fracassado com delírios de grandeza! Como você pode achar que eu ia me apaixonar por um vendedorzinho de banca de revista! Eu te odeio, você é um lixo..."
Enquanto você continuava desfiando este rosário de elogios rasgados à minha pessoa, meus olhos pousaram por alguns segundos sobre a caixa de fóforos que repousava na pia, ao lado do fogão. Me lembrei de ter visto uma garrafa de álcool embaixo do tanque. Enquanto você ainda gritava, agarrei a garrafinha branca, e com ela na mão fui até a pia da cozinha em busca dos fósforos. Você se calou de repente quando eu joguei um bocado de álcool bem no meio do seu rosto, molhando a pele macia de princesa que você tinha. Você voltou a gritar e me xingar, sem conseguir abrir os olhos. Olhei pros seus peitos saltando do decote. Acho que suspirei.
"Te amo, Lúcia."
Risquei o fósforo.

terça-feira, 19 de agosto de 2008

Quem quer ser Gisele?

Ouvi falar de um ônibus que anda circulando nas noites de Chaotic City. Dizem que é um ônibus da linha 434, Grajaú-Leblon. Mas que também pode ser da linha 107, Central-Urca. A única coisa que se sabe com certeza é que todos que pegam este ônibus transformam-se em Gisele Bündchen. Pagam a passagem, passam pela roleta, e PUF! : Gisele Bündchen. Seguem ônibus adentro, rebolando as cadeiras. Homens, mulheres, crianças, anões... ninguém escapa.
Ouvi comentários de que Gisele tem sido vista em lugares improváveis. Atrás do caixa de um supermercado. Dirigindo um táxi. Esfregando o chão do Miguel Couto. Comendo pastel no Saara.
Especula-se que tudo isso faça parte de um plano colocado em prática por uma organização fundamentalista anti-humanidade, como forma de promover o fim definitivo da espécie humana. Este ônibus seria, portanto, o primeiro de muitos. Um test drive para verificar a eficácia da experiência. Afinal, segundo palavras supostamente ditas pelo próprio líder da tal organização, Giseles seriam incapazes de procriar entre si e, portanto, de gerar descendentes pra continuar perpetuando a espécie. Hum...Particularmente tenho minhas dúvidas. Dia desses assisti a um documentário sobre escorpiões no National Geographic. Descobri que há uma raça de escorpiões onde todos os indivíduos são fêmeas. Estava tão interessante que eu dormi e perdi a parte que explicava como, mas o fato é que elas se reproduzem. E muito. E se Gisele Bündchen for uma parente distante das escorpiãs de Lesbos? Daí os planos do líder funadmentalista amti-humanidade não só iriam por água abaixo, como dariam origem a uma nova espécie de seres humanos saradona e turbinada, com incrível capacidade de auto-reprodução! Assustador... Ele teria, inclusive, se defendido publicando um manifesto - ao qual, que fique bem claro, não tive acesso, apenas ouvi falar, à boca miúda - onde declarava, dentre outras coisas, que sua única intenção é acelerar o processo de auto-destruição já iniciado pela própria humanidade...
Há quem diga que não é nada disso. Que tal hipótese não passa de teoria de conspiração, delírio de gente paranóica. Supõem que o fenômeno do ônibus transformador de gente comum em Giseles Bündchens seja fruto da mente doentia de um velho cientista nazista, que vinha trabalhando às escondidas desde o fim da Segunda Guerra num projeto mirabolante cujo objetivo seria o de trazer mais beleza à humanidade através da uniformização radical. Comenta-se que, segundo o tal cientista, a diversidade, a mistura, estariam na raiz de um suposto "enfeiamento" cada vez maior dos seres humanos. Quem já ouviu falar das teorias dele costuma dizer que ele as defende com unhas e dentes em um brilhante tratado intitulado "Em Defesa da Uniformidade do Belo", onde ele enumera as vantagens políticas e econômicas da uniformização do ser humano em indivíduos de igual beleza, tamanho, forma e docilidade. Ah, e que ele teria desenvolvido um meio de reprodução assexuada das Giseles. Afinal de contas, sexo é uma coisa atrasada e contra-producente, que só serve pra atrapalhar a jornada do ser humano rumo a um futuro brilhante.
Na dúvida entre acreditar em uma ou outra teoria, prefiro acreditar nas duas. E por via das dúvidas evito o ônibus de madrugada. Mas fica a critério de cada um o próprio destino. Você pode querer continuar sendo você mesmo. Ou não.

quarta-feira, 21 de maio de 2008

Muito Prazer... Sou A Dama Vagabunbda



A Dama Vagabunda:
Enfia o pé na jaca, sim!, mas de scarpin - e sem quebrar o salto # Não tem vergonha de sofrer por amor - tenta evitar o choro apenas para não borrar a maquiagem (quase sempre sem sucesso...) # Tem opinião própria, senso crítico e noção estética. E os expõe ao mundo, doa a quem doer # Tem uma compulsão crônica e inconsequente por se lançar em desventuras. Curte fossa ao som de Maysa sem vergonha de parecer clichê # Ama e odeia a humanidade com a mesma intensidade - tem compaixão pelas pessoas, odeia as injustiças, e as desigualdades a deixam indignada, mas acredita que a única solução para os males do mundo é a propagação de um vírus mortal que varra a espécie humana da face da Terra # É nostálgica e sente saudades de uma porção de momentos que sequer viveu - do Big Bang, da queda da Bastilha, dos happenings dadaítas, do maio de 68... # faz trocadilhos - inteligentes ou não... # Sente-se extremamente inspirada quando sofre por amor - desilusões amorosas estimulam cruelmente sua criatividade... # não tem o menor saco para indivíduos desprovidos de senso de humor, sem o qual, aliás, torna-se impossível suportar a chatice de existir e a caretice reinante nos dias de hoje # tem vícios, lícitos e ilícitos # tem boas maneiras e conhece as regras de etiqueta, especialmente para mandá-las pro espaço nas constantes situações em que perder a compostura se faz estritamente necessário. Se o barraco é inevitável... # brinda cerveja como se fosse champagne # bebe champagne como se fosse cerveja # detesta gente blasé (embora confesse, um pouco envergonhada, uma certa tendência masoquista a se sentir atraída por seres "inatingíveis") # experimenta momentos de beleza insuportável lendo, ouvindo música ou vendo um filme, e sente nessas horas a proximidade estranha da morte # encerra por aqui pois, embora ainda haja muito a ser dito sobre sua multifacetada personlidade, isso aqui não é uma sessão de análise!