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sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Penso, logo me irrito


Ontem à noite abracei e beijei um livro. Foi um gesto espontâneo, de pura gratidão por ele ter me proporcionado duas horas de leitura frenética e pleno deleite. E olha que eu não tô falando do Kama Sutra, nem do Delta de Vênus ou algo que o valha. Este prazer de tamanha intensidade muito poucas coisas, pessoas ou situações têm conseguido me proporcionar nos últimos tempos. E isto, infelizmente, inclui sexo.
Tenho bebido mais ultimamente. Porque quando fico bêbada não me importo mais com pequenos detalhes. Pequenas chateações. A bebida embota a visão e o pensamento, e os detalhes se diluem num todo caótico, se confundem com a paisagem do olhar míope da embriaguez. E todas aquelas pequenas gotas de irritação, frsutração, desgosto, com a existência, com a humanidade em geral – e alguns espécimes em particular, evaporam e liquefazem-se em litros e mais litros de cerveja que descem goela abaixo me fazendo por vezes até acreditar, em lindos e loucos instantes, que a vida é de fato algo simples, bom e belo.
Tenho me esforçado pra vencer a amargura e não me deixar arrebatar por raivas, tristezas, frustrações, etc, principalmente aquelas provocadas pelas situações do cotidiano e sua odiosa e tacanha irmã siamesa, a rotina. Eles são como pequenos demônios, daqueles que atuam nos mais baixos escalões do inferno, e vêm ao mundo apemas para chutar bengalas de velhinhos e roubar pirulitos de crianças. São medíocres, porém capazes de te tirar do sério como uma unha encravada ou a dorzinha de cabeça chata de uma ressaca.
Porém, o simples fato de ter que me esforçar pra “fugir” dos estresses me parece muito estranho, artificial. Intuitivamente acho que talvez fosse uma questão, quem sabe, de saber canalizar esses sentimentos, mas para que, para onde, como?... Me ponho a elucubrar.
Também, me incomoda um pouco o fato de estarmos vivendo uma certa ditadura do bem-estar. É imperioso que as pessoas estejam se sentindo bem O TEMPO INTEIRO, o tempo inteiro felizes, o tempo inteiro com um maldito sorriso no rosto, como cavalos nos quais avalia-se a saúde pelos dentes. As pessoas perseguem incessantemente essa meta, a busca da felicidade perene, alguns (muitos) cultuam loucamente o físico, outras acreditam no caminho espiritual, alguns (bem) poucos querem aliar as duas coisas. Tudo utopia. É uma profunda contradição a crença de que há possibilidade de se viver em estado semi-constante de alegria e bem-estar, quando todo um mundo conspira contra isso há seculos.
E como toda ditadura, inevitavelmente, se mantem na base da repressão e das patrulhas, na Ditadura do Bem-estar há as patrulhas, da alegria, do bom-humor, etc, cujos discursos vão desde o simples e apaziguador “Calma, tudo vai dar certo”, até a crença no poder do “pensamento positivo”. E ai de quem manifesar publicamente raiva, insatisfação, tristeza, mau-humor etc. De todos os lados vem um batalhão de patrulheiros, alguns condenando, outros desprezando, mais alguns te olhando com olhar de quem olha um louco, outros oferecendo palavras supostamente edificantes, o viciado em endorfina recomendando uma academia, o zen sugerindo a ioga, o simplório citando frases de auto-ajuda, o crente oferecendo a “palavra de deus”, o intelectual passando o telefone de seu terapeuta, o que não consegue se resolver nem com terapia oferecendo umas pílulas de Rivotril, e por aí vai... Sensações que são absolutamente inerentes à condição humana (um tanto o quanto miserável em grande parte) são vistas como condenáveis e inoportunas. “Sua revolta só faz mal a você mesmo” e clichês do gênero apenas simplificam a questão. Porque tudo tem dois lados (no mínimo), e se não houvesse sensação de mau-humor, trsiteza ou raiva, como poderia haver a constatação da alegria quando ela verdadeiramente se manifesta? Ou como sentir a profunda leveza daqueles momentos em que uma pequena, porém genuína satisfação parece fazer o complexo da vida parecer mais simples? Não se trata aqui, portanto, de fazer apologia do sofrimento ou da raiva ou da revolta, mas sim do direito a eles, a vivê-los como tem e como devem ser vividos, sentidos.
Este suposto estado de satisfação plena não existe, nem ao menos para os monges do Tibet, quanto mais para nós reféns de uma sociedade toda errada. O descontentamento momentãneo move muito mais coisas que o contentamento perene, estagnado. A insatisfação é necessária e necessariamente acaba por produzir mudanças (embora estejamos deixando cada vez mais escorrer por entre os dedos nosso poder de promover mudanças, num processo infelizmente irreversível). Quem (ainda) tem senso crítico, sente. E a raiva, tão mau-vista, nada mais é do que a consequência natural das constantes, incessantes sacanagens de todos os gêneros e graus a que somos subetidos no dia-a-dia. Quem (ainda) tem sensibilidade, sente.
Como disse antes, ultimamente tenho encontrado meu falso bem-estar no álcool, e um bem-estar genuíno, embora bem mais escasso, na leitura, na música, nos filmes. Mas a arte está em outro patamar, através dela ultrapasso os limites do simples “bem-estar” para atingir o sublime, que é a verdadeira experiência sensorial da beleza. Mas ela anda tão banalizada. E há muito menos arte e muito mais enfado, mesmice e mediocridade no reino mesquinho do cotidiano e da rotina.
(imagem: Milk http://www.myspace.com/logyu)

quinta-feira, 22 de abril de 2010

O enfado mora ao lado



Eu podia falar de alguma coisa que eu gosto. Mas quer saber? Preciso com urgência falar de coisas que eu não gosto. E na lista bem longa de coisas que me irritam há um item capaz de me despertar especial desgosto: VIZINHOS. Vizinhos são uma verdadeira praga do mundo contemporâneo, e se você vive em um centro urbano é praticamente impossível se ver livre deles. Vizinho é que nem bactéria da flora intestinal: todo mundo tem. Num mundo ideal isso não seria motivo de dor-de-cabeça (às vezes literalmente). Mas como o ser humano é um bicho que ignora totalmente o fazer a sua parte em prol do coletivo, ter tantos seres "sem noção" morando tão próximos a você acaba sendo fonte de inúmeras aporrinhações.
Sou uma pessoa educada e cordial (na maior parte do tempo)e costumo cumprimentar meus vizinhos quando nos cruzamos nos corredores do prédio. É uma regrinha básica da boa convivência que não arranca pedaço de ninguém. Trocar meia dúzia de palavras sobre o tempo no elevador também é válido. O problema é quando o cara acha que um simples "boa noite" é um convite à uma conversa mais longa ou um pedido de amizade. Como aquele sujeito que não pode ouvir um "como vai?" que já responde logo "nada bem" e começa a passar todo o prontuário médico dos últimos meses enquanto você suspira e boceja de canto de boca. Não tenho a menor intenção de que uma relação de vizinhança vá alem do cumprimento respeitoso e da troca de pequenos favores cordiais, quando necessário. Não que seja impossível desenvolver uma amizade com alguém que vive no apartamento ao lado; quando acontece, pode ser ótimo. Mas amizade é algo que surge da identificação mútua. Amizade não se impôe.
Moro em uma área totalmente residencial. Comércio zero. Se vou fazer um bolo e percebo que não tem ovo, não há outro jeito a não ser apelar pra boa vontade do vizinho em me ceder uns dois ou três ovinhos. Só que isso acaba dando mais margem ainda pra vizinhos carentes e desocupados acharem que podem "forçar amizade". A grande maioria dos moradores do meu prédio é formada por senhoras que acredito não terem outra ocupação na vida a não ser a de fiscalizar - e muitas vezes se intrometer - na vida alheia. Na verdade nem sei se é a grande maioria, porque nunca fiz a menor questão de conhecer TODOS os moradores do meu prédio, mesmo sendo um prédio pequeno. Volta e meia vejo alguém com chave destrancando a portaria com ares de morador que eu nunca vi antes. Mas elas parecem ser maioria, mesmo que talvez não sejam, porque fazem questão de marcar presença. Tocam a campainha na minha casa às sete da manhã (ódio!), e nunca é uma emergência maior do que "minha toalha caiu na sua varanda". Aproveitam o momento de pedir uma xícara de açúcar pra entrar no meu apartamento, me alugar e bisbilhotar. Ligam pro meu trabalho (!) no momento em que estou mais ocupada pra me dizer pérolas do tipo: "Estou procupada porque o seu gato está miando". Minha resposta: "ok, continue atenta, quando ele começar a latir você me liga novamente".
Fazem fofoca umas das outras e de todos. Tem delírios de perseguição, morrem de medo de assalto trancando tudo a dez chaves e cinco cadeados. Pior: falam entre si aos berros pela janela! Isso é uma coisa que me provoca irritação profunda. Custa muito pegar o telefone e ligar pra fulana do andar de cima??? Precisa colocar a cara na janela e gritar "Bereniiiiiiiiiice! Fiz um broa de milho que tá divina, manda a Mariazinha vir aqui pegar!", daí a Berenice responde, a outra contesta, e pronto, instala-se um diálogo berrado e lá se foi meu sono às seis e meia da manhã, pra nunca mais voltar. Quando eu ouço música, sempre num volume razoável e num horário idem, lá vem a patrulha da reclamação. Gritar alto às seis da manhã pode, música em volume médio às duas da tarde, não.
Aliás, a questão musical é um caso à parte, que daria uma outra crônica inteira. Tudo bem que gosto é que nem bunda, cada um tem a sua, mas as bizarrices vão do evangélico ao último sucesso da Lady Gaga, passando por sertanejo, axé, enfim, só coisa fina.
Mas a coroa eterna de vizinha mala mor certamente é da Dona Odete. Que morreu há um ano, tornando meus momentos em casa um pouco mais tranquilos. E juro que eu não tive nada a ver com isso, embora tenha tido vontade mais de uma vez de levar um bolo recheado de chumbinho pra ela, ou talvez convidá-la pra um chazinho de cicuta. Quando eu enchia a piscina do meu filho no verão, ela corria a interfonar lá pra casa aos berros de "tá desperdiçando ááááááguaaaaa!" e quando eu perguntava "quem tá falando???" ela batia o interfone. Nunca veio falar isso na minha cara. Uma vez eu estava tomando sol na varanda, com meu filho brincando na piscina, e ela chegou ao cúmulo de pegar o interfone e gritar no meu ouvido: "não pooooode ficar na varanda em trajes inadequadooooooos!" Meu erro foi tomar sol de biquíni. Todo mundo sabe que o traje adequado pra tomar sol é uma burka, e eu querendo transgredir as regras usando biquíni. Tsc, tsc.
Enfim, são inúmeras as encheções de saco. Vou parando por aqui pra não encher também o saco de quem lê. Mas quem não tiver pelo menos uma estória de vizinho mala pra contar é porque provavelmente é um eremita que vive nas montanhas longe da civilização.

(na foto, Clara Bow com cara de enfadada)

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Manifesto do Amor Necessário

Não tenho mais vergonha de chorar em público. Nem de demonstrar o que eu sinto. Há tempos parei de me importar com as imposições imbecis do mundo em que vivemos, dos parâmetros desumanizantes da sociedade contemporânea que dizem que é melhor quem não se importa, que ser forte é não sentir, não se deixar abater pelas paixões e por todas as frustrações e sentimentos arrebatadores que elas podem gerar. Quero declarar agora, a plenos pulmões, aos quatro ventos, que sou um ser humano que vive sob a égide da ternura, apesar de todos os esforços deste mundo merda de me transformar em uma reles carapaça vazia de emoção, ou em alguém que reprime tanto aquilo que sente, buscando uma suposta superioridade, que acaba transmutando todo amor em amargura.
Amo sim, amo muito, porque tenho dentro de mim uma imensa capacidade de amar, condição sine qua non da minha existência. Tenho o direito, enquanto representante de uma conturbada espécie que caminha cega e descontroladamente em direção à auto-destruição, de amar irrestritamente, mesmo que para isso esteja exposta ao julgamento dos covardes, que não têm coragem de deixar-se arrebatar; dos que já perderam (ou nunca tiveram) ternura suficiente para viver a intensidade daquilo que sentem; ou dos que simplesmente compactuam com os parâmentros contemporâneos, reprimindo toda e qualquer sensação que possa abalar as estruturas da fortaleza que construíram em torno de si, para abrigarem-se de tudo aquilo que lhes ensinaram que deveriam temer.
Do julgamento vazio destes não tenho mais medo. Porque ainda acredito que tenha pares neste mundo – embora poucos. Alguns já os tenho próximos a mim, outros acredito existirem perdidos por aí, amando e sofrendo, chorando e se sensibilizando, sentindo e deixando aflorar os sentimentos até transbordarem, extravazando as barreiras da mediocridade alheia, interferindo no dia-a-dia mesquinho dos conformados, sendo a pedra no sapato dos que precisam a qualquer custo manter-se imunes às perturbações do sentir, julgando-se vitoriosos diante do que provavelmente consideram um tremendo incoveniente: amor.
O Jabor escreveu certa vez, numa série de crônicas maravilhosas onde ele expunha suas cáusticas e muito precisas constatações em relação ao que transformou-se o amor e as relações entre as pessoas no mundo contemporâneo, que o amor incomoda aos poderosos porque atrapalha a produção. O amor é contra-producente, pois para atender às demandas do todo poderoso mercado, o sujeito precisa ser frio, inescrupuloso e competitivo. E tudo isso bate de frente com o amor; amar ao próximo não condiz com o comportamento exigido pela sociedade nos dias de hoje. Porque o amor não é racional. Não é controlável, não é passível de análise dentro de padrões cartesianos. É um descontrole, uma manifestação inconsciente, uma patologia – ou seja, um incômodo. Deve, portanto, ser banido, ou pelo menos evitado como um mal desnecessário.
Amar intensamente, e expor desavergonhadamente ao mundo a intensidade de tudo o que sinto, é portanto não só uma necessidade intrínseca ao meu ser impregnado de ternura, mas também uma atitude de resistência ao processo de desumanização a que estamos submetidos o tempo todo, e uma forma de dizer ao mundo que não concordo e recuso-me a compactuar com toda a mesquinhez, covardia e sordidez que vão sendo implementadas e consolidadas ao longo deste processo.
Sem a pretensão de ser entendida. Ou amparada. Apenas amando, contra a corrente. Muito e sempre.

sábado, 3 de janeiro de 2009

01/01



Ela vê os fogos e não entende. Não entende o porque de sentir-se tão vazia de qualquer emoção, totalmente alheia à comoção geral à sua volta, à profusão de beijos, abraços, cascatas de espumante, desejos de renovação. Não pode evitar a lembrança dos reveillons da infância, quando os fogos estouravam bem próximo às pessoas na faixa de areia, galáxias inteiras vindo em sua direção como se fossem tragá-la, provocando as mais vertiginosas sensações, euforia e um friozinho na barriga - ok, de vez em quando alguém se queimava... mas era tão, tão bonito...
Nesta noite os fogos estão distantes, assim como está cada vez mais distante a menina de tranças e olhar embasbacado voltado pro céu onde explodiam supernovas. A menina de então sentia o corpo inteiro inundar-se de emoções, a cabeça de sonhos, o peito de ternura, os olhos de expectativa, os ouvidos da música que trazia a promessa de infinitas possibilidades abrindo-se à sua frente em mais um ano de sua vida que brotava e crescia inebriada de desejos.
A mulher deste primeiro de janeiro de mais um ano do terceiro milênio sente-se estranhamente triste e não sabe muito bem porquê. Seu corpo parece uma casca, um invólucro vazio de conteúdo, jogado de lá pra cá ao sabor dos empurrões dos milhões de espectadores da queima de fogos. Na cabeça as lembranças sobrepõem-se aos sonhos, tornando-a melancólica. No peito um aperto, a ternura quase totalmente sufocada pelas costantes restrições impostas pela vida. Os fogos agora parecem apenas a reprise de um filme antigo e sem graça e os goles de espumante gelado dão algum alento à garganta ressecada que engoliu em seco ao pensar nisso tudo. E embora abrace os amigos e repita pra cada um deles os votos - sinceros – de um feliz ano novo, sente-se irremediavelmente só em meio à multidão que comemora em uníssono.
Ela pensa em vida e em morte. Pensa em sua mãe e em seu filho. E pensa em si mesma como mais um elo neste estranho encadeamento de acontecimentos que se estende pra trás e pra diante com a mesma inconstante imprevisibilidade. Ela pensa em como seria bom se os desejos de renovação de tanta gente tivessem mesmo o mágico poder de alterar para sempre não só o seu estado de espírito, mas também o estado das coisas em geral, as próprias condições em que se encontram os milhares de seres humanos que perambulam a esmo sobre a face do planeta combalido terra. Ela fecha os olhos e tenta com toda a vontade de que é capaz concentar o pensamento em alguma coisa verdadeiramente boa e bela - Saramago e Fernando Pessoa, Florbela e Clarice, Beethoven e Vinícius, Mayakovski e Mallarmé, Neruda e Chico Science, Picasso e Frida Kahlo, Pasolini e Manoel de Oliveira, Almodóvar e Pina Bausch... – e resolve parar por aí porque há tanta beleza no mundo que chega a ser apavorante viver, e a beleza profunda nos dá a dimensão da própria existência, experimentar a beleza nos aproxima vertiginosamente da morte. Ela sente o nó do peito sufocado apertar-se ainda um pouco mais, e é impossível conter as lágrimas que já há algum tempo queimavam no canto dos olhos.
Mas todo esse pensamento junto não dura mais que fração de segundo. Ela também quer comemorar. Ela quer deixar-se levar pelo apelo quase irrestível do êxtase generalizado, exclamar embevecida a cada nova explosão a colorir o céu de Copa. Ela quer e precisa disso, ela precisa esquecer, esquecer-se, ser esquecida, ela precisa mergulhar no gozo anõnimo das multidões embriagadas, embriagando-se ela mesma da loucura e dos sonhos alheios. Ela esvazia a mente e deixa que o espetáculo de luzes tome conta dos olhos e a confusão de sons misturados saídos de milhões de bocas entreabertas transforme-se em música a encher os ouvidos, e todo aquele momento impreguina-se de imanência mundana tornando-se um amontoado de sensações simplesmente prazerosas.
Ela chora mas não há mais agonia. A tristeza subsiste e continua a incomodar, mas ela balança a cabeça expulsando momentaneamente os pensamentos sombrios. E sorri desejando profundamente que ainda haja uma boa reserva de momentos felizes para ela e para todos aqueles a quem ama, todos os seres que respiram com ela esse ar já não tão puro, mas ainda capaz de renovar esperanças.

quarta-feira, 2 de julho de 2008

" É Melhor ser surdo do que ouvir isso!" - Fragmentos

# Para quem achava que conhecia o medo...Som ouvido num boteco do Rio Comprido: a música Pica-pau, aquela dos tempos da Jovem Guarda, em ritmo de... pagode!!!
É inimaginável, só ouvindo mesmo pra alcançar a plenitude medonha da coisa.
# A televisão é território vastíssimo da ignorância e baboseira, verdadeira porta-voz (e propagadora) do velho "febeapá" do Stanislaw - festival de besteiras que assola o país... (e fica cada vez maior). Dia desses tive que aturar aquela galera fascista do MV-Brasil defendendo em entrevista a volta do ensino de MORAL E CÍVICA nas escolas. Ainda bem que a gente não precisa levar muito a sério um grupo que espalha cartazes onde se lê: "halloween é bruxaria". Hahahahahahaha!!! Ufa, então tudo não basta de uma grande piada!
Por outro lado,não há nada mais proveitoso do que passar uma tarde assistindo a programas de televendas. Todos aqueles produtos lindos e súper úteis! Como pude viver até agora sem uma escada que vira bancada? Sem falar na essencial máquina de cortar batata em cubinhos!! Iurrúlll!!! Dia desses tava assistindo a um desses programas, que vendia um remédio milagroso - e super confiável - para emagrecer. Lá pelas tantas fui premiada pela apresentadora loura peituda e obviamente intelectual com a seguinte pérola: " Depois que você toma o Slim-qualquercoisa você se sente satisfeito, sente uma saciez..." Peraí!!! Saciez? Até onde eu sei o termo correto seria "saciedade". Mas sabe quando você começa a duvidar um pouquinho de si mesmo?, pensei: "hum, talvez o termo saciez também possa ser usado nesse caso, e eu tô aqui julgando mal a pobre loira peituda...". Pra tirar a teima busquei o oráculo da pós-medernidade, vulgo Google. Digitei a palavra e esperei. Resposta do Google: "Você quis dizer maciez". Bom, então tá, essa palavra não existe mesmo. Talvez ela tenha querido dizer maciez.

terça-feira, 24 de junho de 2008

Chaotic City News

Bem-vindo ao noticiário das seis horas de Chaotic City! Abaixo os destaques da noite:
# Trãnsito parado na Perimetral, na Ponte Rio-Niterói, Praça da Bandeira, Presidente Vargas, Paulo de Frontin, Viaduto do Gasômetro, Pinheiro Machado, São Clemente... Tudo bem, quem mora em Chaotic City não tem pressa de chegar a lugar algum mesmo...
# Ônibus mais desgovernado que o Brasil na época do carnaval invade estacionamento.
# Homem escapa de morrer queimado por traficantes por tentar roubar uma bolsa na favela. A polícia o encontrou a tempo, mas ele foi preso por já ter antecedentes criminais. A mãe declara ao ser entrevistada: "é melhor que ele fique preso mesmo."
# Policial é sequestrado e assassinado na Pavuna. Comandante do batalhão diz que a morte não foi encomendada, e sim uma fatalidade. OK. Papai Noel, Coelhinho da Páscoa e Saci Pererê também acham.
# Após sequestro que culminou na morte de três rapazes praticada por soldados e um oficial semana passada, decisão judicial obriga o exército a deixar o Morro da Providência, sendo substtuído pela nossa sempre cordial Polícia Militar. A troca certamente deixa os moradores da favela muito aliviados, com a certeza de que poderão dormir tranquilos.
# Presidente Lula aprova Projeto de Lei que prevê indenização para as famílias dos três rapazes assassinados. Indenização esta que virá acompanhada de uma carta dizendo: "Aí, minha gente, foi malzão mesmo! Mas tudo bem, vamos embolsar essa graninha e não se fala mais nisso né?..."
# Tentativa de assalto termina em tiroteio no Caju. Duas pessoas morrem. O lado bom é que já morreram perto do cemitério.
# Acidentes no trânsito: Ônibus bate em pilastra na Zona Norte. 18 feridos./ Acidente envolvendo ônibus e van em alta velocidade mata 2 e deixa 12 feridos na Zona Oeste./ 2 acidentes graves na Linha Amarela. O segundo aconteceu porque o motorista se distraiu olhando o primeiro.
# Chacina na Baixada. Cinco pessoas mortas em Duque de Caxias. O alvo era um policial. Mas o assassino tava de mau humor e resolveu meter bala em todo mundo que tava por perto.
# Polícia prende quadrilha especializada em roubar remédios pra câncer (!!!)que seriam distribuídos gratuitamente nos postos de saúde (!!!!!!) e revendê-los a preços exorbitantes.
# Last, but not least: O presidente Lula anuncia a liberação de R$ 85 milhões (!!!!!!) para a candidatura da Chaotic City a sede dos Jogos Olímpicos. Uma cidade pacata, tranquila e organizada como essa realmente merece. Verbas para segurança? Educação? Saúde? Pra que, se nós podemos ter Jogos Olímpicos?

sábado, 24 de maio de 2008

Crônicas de Chaotic City - "Essa cidade me atravessa..."

Ponho os pés na rua e constato: típica manhã ensolarada de sábado. Luz estourada obrigando minhas pupilas preguiçosas a encolherem-se meio a contragosto por detrás dos indispensáveis óculos de lente escura. Vou pro trabalho.
Em manhãs de sábado como esta posso testemunhar um dos mais curiosos fenômenos inerentes à vida dos habitantes de Chaotic City: hordas de pessoas sumariamente (mal) vestidas amontoam-se em ônibus velhos, quase sempre dirigidos por sujeitos neuróticos, rumo à longas faixas de areia onde terão de disputar com outros milhões de indivíduos espaço ao menos suficiente para acomodar seus glúteos sobre a areia escaldante. Pode-se caminhar quilômetros em sinuoso e nada prático zigue-zague por entre cadeiras e mulheres deitadas - que paradoxalmente não admitem ser atingidas por alguns míseros grãozinhos inevitavelmente lançados pelas passadas dos transeuntes, embora estejam estendidas em meio à toneladas de areia - sem encontrar uma sombrinha sequer, a não ser a pífia e insuficiente provocada pelos guarda-sóis. Não fosse a presença do mar logo ali, poderia-se pensar que o Saara é aqui... Embora o curto caminho para chegar ao mar esteja tomado por centenas de sombrinhas, cadeiras, isopores e piscinas de criança, provavelmente já é um consolo saber que ele está ali, mesmo que quase invisível por detrás de tantos obstáculos.
Tais considerações povoam minha mente enquanto me espremo num canto do 433 lotado em pleno sábado onze e meia da manhã. Bom, nada de novo, a lotação é apenas um dos inúmeros aspectos da sinistra sina de milhões de seres obrigados a fazer uso do transporte público em Chaotic City.
O que me faz pensar na estranha relação que tenho com a cidade. Que eu poderia até chamar de simbiótica - se fosse saudável. A cidade me enlouquece, me estupra, me irrita, me deprime. Eu a hostilizo sem um pingo de compaixão.
Sinto-me, entretanto, intrínsicamente, organicamente ligada a ela, como se o fluxo caótico dos carros nas ruas desorganizadas fosse o próprio reflexo do pulsar incessante do sangue correndo em minhas vias, ops!, veias. O atrativo existe, embora intangível. Deve haver uma espécie de parentesco ancestral, um ponto invisível onde nossos DNAs, o traduzido e o intradutível, se fundem numa miscigenação incestuosa. A cidade me afugenta mas eu não fujo. Às vezes, em arroubos quase naïf, chego a crer que posso enfrentá-la com explosões de indignação incontida ou tentativas inúteis de apelo à supostos resquícios de civilidade. A cidade apenas escarnece da minha ingenuidade, com promíscuos tapinhas nas costas...
Após deixar pra trás a praia do Flamengo, o ônibus pega enfim o aterro. Ainda bem que existe o aterro, privilégio poder passar por ele, admirando os contornos do Pão de Açúcar.
Minha relação com a Chaotic City é completamente sadomasoquista.