quarta-feira, 27 de maio de 2020

Parece triste... E é. Ou não? Certamente é Confuso.




Às vezes, muitas vezes, tantas vezes

EU SOU A PESSOA MAIS SOZINHA DO MUNDO.

Mesmo com família fisicamente próxima e tanta gente boa virtualmente à minha volta. Como se todo o universo ao meu redor se desintegrasse, e eu à deriva num buraco abissal todo cheio de nada, uma escuridão profunda, vazia e dilacerante.

Tem gente linda sim me acolhendo, todos essenciais no seu jeito tão verdadeiramente amoroso de me dizer o quanto eu sou maravilhosa e merecedora de coisas boas e belas, e eu acredito em cada um porque no fundo eu ainda sei que sou. Eu ainda acredito em mim, acreditem. Ouvi dizer mais de uma vez que sou amada, e que onde quer que eu pise nesse mundo desperto bem-querer nas pessoas de bom coração. Me foi dito isso, e não há de ser força do mero acaso. Porque eu vivo, eu sempre vivi, sob a égide do amor, e esta proteção nada nem ninguém na vida há de me roubar!

E saber disso tá muito longe de ser pouca coisa. A bem da verdade, no meio desse vazio abissal, talvez isso seja o fio suspenso no ar no qual ainda venho me equilibrando nessa teimosia de me manter fiel à vida, apesar de tudo. Mesmo as mariposas em constante revoada em meu estômago que às vezes tornam-se furacões que me arrastam pra tão longe a ponto de eu mesma acabar me perdendo de mim.

Há quem creia que eu não deva expor minha tristeza e nem falar em meus textos tão abertamente da minha solidão. Que de repente isso me enfraquece. Olha, talvez, talvez vocês tenham razão. De repente sim. Talvez eu devesse usar mais meu alter-ego nesse momento, como escudo protetor, ser terceira pessoa. O vampirismo emocional pode ter lá seus canais online também né. Mas não, hoje não. Hoje não consigo. Hoje precisa ser eu a me desnudar, e nada mais. Talvez essa escrita frenética dos meus sentimentos mais profundos seja efeito do isolamento, da ausência do carinho, do abraço, do afago, do chêro no cangote, do toque, da conchinha, da vida social, essas coisas que nós, os “cerumanos”, costumamos, na maioria dos casos, não só gostar, mas precisar mesmo, saca? 

Mas talvez o que enfraqueça mais a gente seja a vontade de gritar e só encontrar ao redor as mesmas malditas quatro paredes fazendo esse grito ecoar de volta pra gente mesma. Esse grito encapsulado numa urna de cristal, tão cheia de elegância quanto de fragilidade. E um sorriso de palhaço pintado na máscara que eu vesti hoje de manhã pra emular felicidade. Desculpa incomodar o silêncio da sua viagem. Tira a sua quarentena egoísta do caminho, que eu quero passar com a minha dor. Eu ainda tô lambendo as feridas do meu orgulho e do meu coração, mas só porque aprendi com os bichos que a saliva cicatriza. E com a meditação também aprendi que ego é tudo aquilo que você tem que abandonar pra descobrir o seu eu mais profundo e verdadeiro. Que mesmo que você nunca descubra, a jornada já é mais importante e essencial do que o quer que exista no final desse caminho.

A verdade é que eu já reprimi meus sentimentos tantas vezes nessa vida que hoje o que eu sinto mesmo é necessidade de transbordamento. Meu sofrimento é mesmo cheio de som e fúria, de medo e delírio – e uma dose de masoquismo, como um licor amargo que eu vou tragando em golinhos dolorosos. Talvez só com terapia mesmo eu aprenda a nunca mais permanecer neste lugar por tanto tempo, que não que eu não possa passar por ele – mas é pra ser de baldeação, nunca pouso permanente. 

Deusas e deuses, tenho certeza que daqui a algns anos certamente vou me reler e provavelmente rir da minha capacidade de ser tão dramática. Como aliás, já fiz outras vezes. Talvez eu possa jogar a a culpa nos astros se um dia me esfrorçar um pouquinho mais pra entender algum tipo de mensagem que há no céu do meu nascimento. Pensando agora, este parece um texto triste, mas paradoxalmente também não parece. 
   
Há ainda alguns momentos, espalhados pelos dias, em que me sinto, por algum motivo qualquer, inexplicavelmente bem. Quando danço ou canto sozinha, livre e espontaneamente, como hoje na cozinha ouvindo Madonna e preparando a comida. Por breves instantes quase chego a introjetar em minha alma de forma irremediável a verdade de que um dia terei asas pra voar novamente. Neste momento, porém, junto a todo esse incômodo sinto muita dor nas articulações dos calcanhares, um resquício de uma chicungunha que alguns anos atrás nem foi tão forte assim, mas pelo visto deixou seu legado, obrigando a me humilhar usando uma pomada feita de uma erva chamada "canela de velho". Vida, chega de ironia, tá bom já. Já deu. Já não me basta ter sofrido de uma doença chamada "chicungunha"? 

Pisar no chão tá doído, talvez porque tô pisando nos meus próprios cacos espalhados no assoalho. Assim como ainda doem as feridas abertas das asas cortadas (talvez por mim mesma?!), dor de assum preto, blackbird, black raven.

Quase sem querer, invoco Paul a sussurrar em meu ouvido, com ternura melodicamente fúnebre: “Take these broken wings and learn to fly”.

Quase sem notar, invoco Belchior, que amar e mudar as coisas nos interessa mais, cantarolando em minha cabeça: "No presente a mente, o corpo é diferente, e o passado é uma roupa que não nos serve mais”.

E o futuro ao infinito pertence.  

(imagem: Chiara Bautista, minha amada Milk)

#Carentena

quinta-feira, 21 de maio de 2020

Um Pouco de Droga, Um pouco de... só droga mesmo.



De madrugada a tristeza
que durante o dia inteiro expulsei da mente, do coração, do corpo,
na base da porrada, do floral e de pequenas distrações alienadas
(uma música,
um raio de sol,
uma risada com uma amiga
uma afofada na gata)
escancara a porta e as janelas como uma ventania indesejada
e eu só me encolho embaixo do edredom, enroscada
esperando a chegada dos inevitáveis efeitos mágicos
da pílula que desata o nó na minha garganta,
e adormece as revoadas constantes de mariposas
que deram pra fazer morada em meu estômago, as danadas!
A ventania vira brisa do mar, suave sopro, breve calafrio.
Eu durmo um sono delicioso, indomável,
artificialmente induzido,
pensando no "amanhã" como apenas mais um dia.
E cada mais um dia de amanhã
Como mais um dia vivido.

(Arte: Alphonse Inoue) 


quarta-feira, 13 de maio de 2020

GRITO




Às vezes escrevo porque quero GRITAR
GRITARGRITARGRITAGRITAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA
.
.
.
mas não consigo, não posso, me calo.
Há um grito, por exemplo, neste exato momento dentro de mim.
Enorme, gigantesco, colossal,
muito maior que do que a minha voz pode sonhar alcançar,
especialmente nestes tempos de nó na garganta que não logro desatar.
Este grito, que tem tantas formas, tantas cores, tantos timbres, tantos matizes...
Prisioneiro, testa a expansão dos limites do meu corpo.
Fisicamente este grito ocupa um espaço
que vai da cabeça até o baixo ventre
E os espreme em forma de dolorosas sensações
que não cessam nem sob o efeito de analgésicos.
Para além dos limites do meu corpo físico,
este grito me oprime de fora para dentro.
Me engole, me traga, me atomiza, me anula,
atravessa minha alma como uma flecha e a estilhaça.
E é aí, nos estilhaços daquilo que sobra, que vejo meu próprio reflexo:
confusa, estremecida, deformada, fragmentada.
Este grito é tão alto que não é passível de se materializar a não ser através do silêncio
E as palavras não dão conta do tamanho deste grito
Porque a angústia que ele carrega em si é ancestral ao advento da linguagem.
A angústia deste grito é imensa, profunda, abismal, imensurável.
E eu, no momento triste, pequena,
no momento acanhada e só
apenas silencio e sucumbo
à minha própria incapacidade de gritar.


#ADamaVagabunda #Carentena #MontanhaRussa


sexta-feira, 8 de maio de 2020

Dia XX da #carentena



Hoje vai ter malhação e violão. Eu acho. Devia ter, porque ontem o frio e a chuva não colaboraram, e eu tô tentando abandonar o antigo hábito de abandonar.

Nascida em BH mas crescida no Hell de Janeura, sou friorenta. 20 graus pra mim já é papo de casaco, cachecol e meia. Eu gosto, quando consigo me agasalhar a contento. Mas confesso que a ventania da madrugada anterior trouxe junto com ela sussurros e gemidos, como se um portal se abrisse entre dois mundos, e quem é de sensibilidade aflorada sentiu algo de estranho também, um desassossego.
Eu gosto de chuva, mas era bem melhor antes quando você olhava pras gotas escorrendo na vidraça (nossa, como eu sou gótica), cantarolava Garbage, pensava "que bom que não preciso sair de casa hoje" e ficava de molho com edredom, filminho e chá, talvez um "cobertor de orelha" - mas aí depende, é uma faca de "dois legumes" né mores, porque estar só é sempre melhor que estar mal acompanhada, mesmo que nossos coraçõezinhos carentes e românticos estejam sempre tentando nos convencer do contrário.

Agora estamos todos perdendo a sanidade dia após dia e tentando nos convencer da ideia de que de alguma forma vamos sair melhores disso tudo, porque talvez fazer o jogo do contente seja o último refúgio das nossas mentes exauridas pelo excesso do absurdo. Por outro lado, de repente Pollyanna - por mais que eu odeie ter que dizer isso - tenha razão e precisamos mesmo perder um pouco da velha sanidade e abrir uma brecha pra um raio de sol iluminar nossos sótãos esquecidos num limbo do espaço-tempo.

Mas eu consegui aproveitar esse mood de ontem pra terminar de ver o filme do Almodóvar, que nunca me decepciona em me fazer morrer de amor, aquela morte momentânea que te arrebata quando você se aproxima demais da beleza em si, como a breve cegueira que se sente ao tentar olhar diretamente para o sol.

Tô com medo já - the winter is coming! hahaha, mas eu tenho bastante agasalho (tenho nada, mas meu filho tem os melhores casacos e eu tenho o melhor filho) e vou investir numa garrafa de pinga boa pra espantar o frio honrando minha linhagem lá das Minas Gerais. E é tanto amigo dizendo que sou forte que tô quase acreditando em vocês, viu. Porque que eu sou foda eu já sei. Só preciso me lembrar disso todos os dias pela "manhã" (meio dia é a nova manhã).

Viver com ansiedade constante, que aumenta ou diminui ao ritmo de uma maré que mistura diferentes conjunturas em diferentes âmbitos da vida, não é fácil, mas a gente vai levando essa chama
Mesmo com o nada feito
Com a sala escura
Com um nó no peito.

Que a Dama Vagabunda, esse alter ego que criei pra me fazer lembrar do que eu sou, nunca teve medo de expor suas emoções e nem do julgamento dos covardes e das almas sebosas. Mas que ela também, ao longo desses anos, amadureceu o suficiente pra saber que se proteger, se cuidar e saber o momento da não-ação e de entregar o destino nas mãos do universo também é sabedoria que vem da ancestralidade cosmológica. Por mais duro que seja admitir que não temos controle sobre as situações, por mais duro que seja deixar simplesmente a vida seguir seu fluxo, o que tiver de ser, será. E que seja o melhor pra mim e pra cada um de vocês que eu amo às vezes mais do que harumaki de romeu e julieta (sim, isso existe e é tipo deus enroladinho e frito em imersão).



quarta-feira, 6 de maio de 2020


Poderiam desinventar a palavra saudade
Quem sabe assim eu deixaria de sentí-la ?