segunda-feira, 11 de maio de 2009

Sonhos

(I)
Nossa casa/abrigo fica à beira-mar. Não de frente para a praia, mas sobre um deque que avança mar adentro. Não é uma praia deserta, é uma praia urbana, como uma Ipanema em um lugar fora do mundo.
Somos três vivendo ali. Passando uma temporada talvez, há um clima no ar de "isto é especial e não vai durar pra sempre". Mas ao cair da tarde saímos apenas eu e ele para ver de dentro do mar o espetáculo dos fogos de artifício. Os fogos estouram bem longe, no horizonte, olhamos e o sentimento mútuo é de maravilha, de estar compartilhando algo realmente incrível. Saímos da água, pessoas caminham no calçadão sob a luz dos postes que acendem todos ao mesmo tempo, nós bebemos e rimos e celebramos o encanto daqueles momentos. Passamos a noite assim, na praia bebendo e rindo e trocando olhares que dizem muito. Há uma forte tensão sexual no ar, mas não nos beijamos. Parece que não é preciso.
Dia seguinte. Acordo cedo e me deparo com os dois, ele e ela, tomando café-da-manhã na cozinha. Estou feliz, tudo é muito luminoso. Olho meu rosto no espelho do banheiro e ele me parece estranho. A pele está descascando por causa do excesso de sol, e há manchas meio escuras como das pessoas que têm vitiligo. No entanto me acho especialmente bonita naquele momento, com meu cabelo preso num rabo de cavalo com cachos que chegam à altura dos ombros. Ponho uns óculos escuros de armação branca e contemplo a imagem no espelho.
Volto à cozinha onde os dois estão rindo. Ele então comenta: "Eu e XXXX (o nome é pronunciado de forma ininteligível) podíamos ter ficado ontem... acho que ficamos"... eu respondo com um sorriso e passo por trás dele dando a volta pra chegar à geladeira. Percebo então sobre a mesa papéis de polenguinho amassados, e me lembro imediatamente dos três que escondi ontem na geladeira, atrás de um pote de mostarda de dijon, embaixo de um pacote de queijo ralado, em meio às abobrinhas na gaveta de legumes. Sinto um misto de raiva e desespero me subindo à cabeça (parece que polenguinhos são mesmo um tesouro por aqui), mas uma segunda olhada em direção à mesa me revela que não são polenguinhos mesmo, mas algo parecido, como polenguinhos de marca genérica (o nome da marca era Regina...?). Respiro aliviada.

***

(II)
O narrador, de personagem, passa a observador. Mas pode, às vezes, ver através dos olhos do protaganista, e sente o que ele sente o tempo todo, como um deus onisciente. O protagonista, por sua vez, é um rapaz que deve ter uns vinte anos e é muito bonito. Tem cabelos louros que à primeira vista parecem curtos, mas logo percebe-se que ele mantem um estranho rabo de cavalo que quase sempre repousa sobre o ombro esquerdo. Ele está num navio rumo a Cingapura. O objetivo de sua viagem é reencontar a moça que é seu grande amor (é uma aventura romântica). Mas o navio em que ele viaja é uma espécie de embarcação que carrega ilegalmente através dos mares gente que não tem condições de arcar com as despesas de uma viagem dessas. Ele observa o convés do navio e a cena que vê é bastante grotesca. Todas as centenas de pessoas ali presentes são incrivelmente desformes, e no entanto cantam e dançam, e a cena se parece com um festim medieval povoado de demônios, como um quadro de Bosch. Há inúmeras psicinas de diversos tamanhos espalhadas por ali, e muitas daquelas pessoas sentam-se ao redor com as canelas na água. Ele observa uma dessas piscinas, onde um homem amarra o último dente que tem na boca ao corpo de uma enorme carpa, e quando esta salta na água leva consigo o dente amarrado ao cordão, para gozo e delírio do pequeno grupo que observa a cena. Nada daquilo parece real. Ele se aproxima da beira de uma piscina grande e olha para a água. Um tubarão de tamanho descomunal pula de repente para fora, num susto, e cai no chão se debatendo, enquanto algumas pessoas correm assustadas. Ele não corre mas mantêm-se inerte, paralisado pelo estranho fascínio que a visão do tubarão lhe proporciona. Quando dá por si percebe, cada vez mais perturbado, que o enorme animal é feito de espuma, como um fantoche gigante, e de dentro dele sai um rapaz, que vem caminhamdo em sua direção. O rapaz é simplesmente a coisa mais bonita que ele já viu em toda a vida, e o momento é impregnado de uma tensão que é quase palpável. A beleza do garoto saído da boca do tubarão é diferente de tudo que ele já vira, diferente inclusive da sua própria beleza, que é mais dentro do padrão, mais lugar-comum. O garoto-tubarão é bem magro, seus cabelos são pretos, seu andar é felino, seu olhar é carregado de uma energia feminina destruidora, e quando os dois estão frente-a-frente eles se encaram, o garoto-tubarão passa as costas da mão pelo rosto do protagonista, ele percebe-se neste momento completamente arrebatado, louco de paixão, e nada mais importa.

Um comentário:

jaqueline gomes disse...

intenso.

ps.: não consigo dizer algo mais.