terça-feira, 2 de setembro de 2008

Cinza e pó

O momento de olhar praquilo tudo e perceber que quase nada se distingue em meio à massa disforme, carbonizada. Quase tudo cinza e pó. Pequenos vestígios de plástico retorcidos formam estranhas esculturas, desafiando minha memória que insiste na tentativa quase sempre vã de recordar estes objetos em sua forma original. A ação do calor sobre o plástico é estranha e devastadora, mas olhando agora pra restos de pratos de acrílico e potinhos "tupperware", ouso dizer que é bela. Assustadora, mas terrivelmente bela. Penso em guardar os restos destes objetos, souvenirs macabros. Imagino que dariam uma boa instalação. Sempre tive uma queda pela arte contemporânea. Qualquer um pode ser artista. Por que não eu? Verdade que sempre fui um reles vendedor de banca de jornal do centro da cidade. Vocês podem até achar legal esse papo de ter todas as notícias do mundo ali, à mão. Mas o fato é que você se cansa. Cansa de tanto acesso à informação. Não quer mais ler aquele monte de notícias manipuladas. Um dia viro artista de vez, tenho meia dúzia de idéias que acho que podem colar. Uns lances com vídeo-arte...
Na verdade cheguei tarde demais. Os bombeiros já estiveram aqui, apagaram o fogo. E a perícia chegou surpreendentemente rápido, analisando todos os vestígios. Se conseguiram encontrar alguma possível prova das causas do suposto acidente, a esta altura já estão lá, preparando seus laudos. Tive medo de me aproximar demais, de ter de encarar a cena que encaro agora, remexendo nos escombros enegrecidos até ficar coberto eu mesmo por um pó preto que se gruda à minha pele de forma aparentemente ireversível. A imagem do caos em que se transformou sua casa imprime-se em minhas retinas irritadas. E você, ou o que quer que possa ter sobrado de você, não está aqui. Devem tê-la levado, sem deixar para mim sequer um farrapo de vestido queimado. Era algo que eu gostaria de guardar. Como lembrança.
Lembrança desta noite. Daquele vestido verde decotado que sempre que você usava eu ficava com uma vontade louca de te comer. Você sabia disso e vestia ele de propósito toda vez que queria me chantagear. Você nunca valeu mesmo o prato que comia, não passava de uma vadia peituda que sabia exatamante o que fazer para manipular os homens, como sempre fez com todos os outros antes de mim.
Você abriu a porta e me encarou com aquele seu olhar vazio de estátua grega. Me emputeci na hora. Me convidou pra entrar. Estava tomando uma taça de vinho. Aceitei a taça que você me ofereceu, sentando no sofá e olhando pros seus peitos. Visão que, junto com a primeiro gole do vinho, ajudou a arrefecer a raiva que eu sentia.
"Cê sabe que eu faço tudo por você", comecei."Até mesmo me despencar até aqui às duas da manhã."
"Sei. Sempre foi assim, né? Eu chamo e você vem..." (Você tentou, sem sucesso, imprimir um ar de descontração ao comentário...)
"Pois então. Seu servo mais fiel está aqui novamente. O que você tem pra me dizer que não pode esperar até a luz do dia?"
"Vou embora. Meu vôo sai às sete."
"Brasília?" retruquei, já adivinhando, "vai voltar praquele filho-da-puta?"
"Sei que é difícil pra você entender... mas estou ligada a ele por laços maiores do que os estabelecidos pelas relações humanas. É um lance cármico, sabe? Agora tenho certeza..."
"Mas esse cara quase te matou!" (falei isso ainda sussurrando, tentando processar o absurdo do que você acabava de me dizer) "Cê saiu de lá, largou família e um bom cargo no governo pra fugir desse sacana! Que papo é esse de 'lance cármico'?"
"Querido, Madame Cileide confirmou tudo! Eu e Clécio temos pendências de outras vidas pra resolver."
"Como é que você pode acreditar nessa merda? Uma pessoa como você, filha de desembargador poderoso em Brasília, que estudou nos melhores colégios, formada em direito... Só falta me dizer agora que foi abduzida e tá grávida de um ET!!!" (a essa altura eu já estava gritando...)
"Por isso nunca quis te contar. Porque sabia que você não me levaria a sério... Ficaria aí com esse seu jeito, fazendo piadinhas de mau-gosto..."
Esse foi o momento da explosão. Parti pra cima com tudo. Eu estava decidido a te segurar aqui, nem que pra isso precisasse te amarrar ao pé da mesa. Você correu e se trancou no banheiro, choramingando e me chamando de covarde, canalha, escroto, e mais um punhado de adjetivos tão carinhosos quanto.
Passei pela cozinha e fui até a área de serviço, procurando algo que eu pudesse usar pra te amarrar. Se você insistisse em ficar trancada no banheiro eu arrombava a porta e pronto. Te amarrava lá mesmo. Ouvi um grito, me virei e vi você ali parada na porta da cozinha.
"Eu nunca te amei, imbecil. Era tudo fingimento. Usei você enquanto serviu aos meus propósitos, e agora te descarto porque não me serve mais. Você não passa de um fracassado com delírios de grandeza! Como você pode achar que eu ia me apaixonar por um vendedorzinho de banca de revista! Eu te odeio, você é um lixo..."
Enquanto você continuava desfiando este rosário de elogios rasgados à minha pessoa, meus olhos pousaram por alguns segundos sobre a caixa de fóforos que repousava na pia, ao lado do fogão. Me lembrei de ter visto uma garrafa de álcool embaixo do tanque. Enquanto você ainda gritava, agarrei a garrafinha branca, e com ela na mão fui até a pia da cozinha em busca dos fósforos. Você se calou de repente quando eu joguei um bocado de álcool bem no meio do seu rosto, molhando a pele macia de princesa que você tinha. Você voltou a gritar e me xingar, sem conseguir abrir os olhos. Olhei pros seus peitos saltando do decote. Acho que suspirei.
"Te amo, Lúcia."
Risquei o fósforo.

3 comentários:

Leonardo Martinelli disse...

Legal, Aurora!
E aquela madruga, rendeu?
Ah, deixa teu telefone num comment lá no blog. Eu modero... Ninguém vai pegar...

Marie disse...

muito bom o conto

Coral disse...

Nossa!
Em Algum Lugar do Tempo.