sábado, 1 de agosto de 2009

Retorno

Você parado ali na porta da frente, olhando pra mim com olhos inchados – de raiva, bebedeira ou sono atrasado?...
Despertei subitamente do estado de vigília que sempre me assolava quando me punha a esperar – uma espécie de transe, de quase sono sem sonhos; seus olhos tontos, olhos perdidos...
Me aproximei de você pronta a te dar um abraço, te levar pra cama, te cobrir carinhosamente, como só uma mãe o faria, talvez até cantarolar uma velha canção de ninar - como nos bons tempos, lembra-se? Eu mesma não consigo mais lembrar...
Você parece tão perdido em devaneios, o olhar tão insano, olhando através do meu corpo, através das paredes, dos velhos quadros empoeirados, vislumbrando antigos mundos detruídos, civilizações ancestrais dizimadas pelas chamas ou pela fúria de mares revoltos, impérios destroçados pela fome, pela peste ou pela guerra... Tudo isso eu via refletido nos seus olhos, e a ansiedade de te amparar, de te embalar, de te confortar e espantar seus pesadelos crescia dentro de mim na tentativa de vencer a letargia que dominava meu corpo e meu espírito.
Eu estava hipnotizada. Hipnotizada por aquele seu olhar, lunático e inflamado, vagando junto com ele por tantos mundos perdidos, enxergando através dos seus olhos todas as atrocidades cometidas ao longo de todas as eras – os mais requintados métodos de tortura, os mais diversos tipos de execuções sumárias, centenas de cadáveres empilhados sobre ruínas de destroços mal-cheirosos, batalhões de crianças famélicas com cabeças desprovidas de rostos - tudo passava diante de mim através dos seus olhos, fazendo-me sentir o que você sentia, todo o seu desespero, todo o seu desprezo pela humanidade, seu flerte constante e apaixonado com a Morte. Por um instante pude compartilhar com você, e por fim compreender, a misteriosa atração que a velha senhora exercia, o desejo quase incontrolável de atirar-me para ela e ser envolta em seus braços frios, deixando-me embalar por sua canção derradeira.
Mas alguma coisa estranhamente distante dentro de mim apagou tais devaneios, talvez fossse a própria essência da vida lembrando-me que era apenas você, o ser que eu amava, e não aquele anjo do apocalipse de olhar inflamado, a expressão refletindo a da própria Morte. Vencendo num mesmo impulso o torpor da hipnose e o terror das visões compartilhadas, consegui finalmente mover-me em sua direção, e embora você estivesse a talvez uns dois metros de distância de mim, meus pés descalços percorreram longos vales e atravessaram montanhas, sentindo as pedras arranhando-lhes as solas, a grama molhando-os, a terra entrando-lhes por entre os dedos. Nunca aquele vestíbulo havia se estendido por tão longas distâncias à minha frente.
Finalmente te alcancei – músculos exauridos, pernas trêmulas - ; por quanto tempo teria estado te esperando? Horas, dias, semanas, ... simplesmente não conseguia me lembrar, porque não tinha mais importância, você estava ali, o terror incondicional do seu olhar cessara, e você agora me olhava nos olhos e seus olhos pareceram enxergar minha alma, pareceram ver a ansiedade que a dominava.
Sem mais poder me conter, estendi os braços para você, e você se aproximou, mais devagar do que de costume, e de repente uma centelha de dúvida acendeu-se em algum lugar de meu espírito. Ainda havia algo de insano e inescrutável no seu olhar –“algo de podre no reino da Dinamarca”, murmurou um Hamlet decadente das profundezas do meu inconsciente; mas tudo não durou mais que uma fração de segundo... estávamos abraçados, e a dúvida em minh’alma dissipou-se no calor daquele abraço, e todo o meu corpo regozijou-se daquele contato, e o meu prazer foi tão intenso que quase não pude sentir o toque frio e cortante da lâmina que deslizava em meu pescoço, cortando-me a garganta, fazendo saltar da minha jugular um jorro quente e úmido que inundou nosso abraço em uma torrente vermelha e pulsante. Só pude sentir a frieza da lâmina quando já era tarde demais, e aceitei o destino que você me impingiu com estranha subserviência, deixando o peso do meu corpo desabar sobre você, satisfeita por morrer em seus braços, a vida saindo toda de dentro de mim através do corte em minha garganta, esvaindo-se naquele jato morno, rubro e pegajoso. Nunca, até aquele instante, poderia ter imaginado que a vida, ao abandonar o meu corpo, teria um aspecto tão orgânico, tão imanente. O momento da morte nada tinha de metafísico: era apenas sangue jorrando por uma veia cortada.
Mesmo quando a visão sucumbiu, e os outros sentidos aos poucos também, esta foi a impressão que ficou. Não havia mais nada. Você me matou.

2 comentários:

MELissa disse...

Ai ai... Nossa... Morte niilista?

Louis ALLLien disse...

putaqueoipariu putaqueopariu putaqueopariu.

é o que eu consigo dizer depois que terminei de ler.