quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Antropofagicomic

Você vai embora e leva um pedaço de mim
numa quentinha pra comer mais tarde.
A luz do nascente que invade o meu quarto
ilumina o pedaço de mim arrancado,
banhado no molho pardo do sangue
que há pouco corria em minhas veias
até desaguar em sua boca que o sorvia.
E eu ria, eu ria, eu ria,
enquanto você canibalesco se fartava
do banquete que eu te oferecia;
enquanto você, obstinado e doente,
cego e abstinente do meu corpo,
me comia.

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Blues cotidiano

Escovo os dentes no banho. Choro embaixo do chuveiro pra esconder as lágrimas de mim mesma. A mistura de ressaca com tpm é quase sempre indigesta... talvez amanhã o mundo volte aos eixos, talvez não, quem sabe?... maldita moral, maldita culpa. Um dia aprendo a viver sem (quando?)... Meto a tesoura nos cabelos, terapia eficaz.
Pausa pro café. Cafeinômana, duas xícaras, açúcar e vapor, mais um pouco de açúcar, glicose é afago pra alma. Momento suspenso no fio do tempo... momento de sentar no chão da varanda lateral e observar o casarão vermelho imponente no alto do morro, bebericando devagar o café doce/amargo.
Em cima da hora acabo vestindo a saia guarda-chuva que levanta com o vento. Na rua, ventania pré-tempestade, revoada de folhas, algazarra do ar em movimento, e a minha bunda de fora na porta do banco, apertando inutilmente a droga do botão com uma mão, empurrando a porta com a outra, tarde demais pra evitar a gargalhada dos moleques que passam...
Chove e eu choro embaixo da chuva só pra não perder o hábito de brincar de esconde-esconde. Ao menos a ventania parou, e a saia vai continuar no lugar até eu me distrair e passar em cima de um desses bueiros que sopram de baixo um ventinho intermitente.
Refúgio na livraria. Fugindo da chuva , do aperto no peito e da abstinência de cafeína, bebo o café em golinhos calculados, minúsculos, pensamentos tolos, planos de dominação do mundo, um livro do Fernando Pessoa. um pouco de saudade de alguém do outro lado do mundo...
Quando vejo que a chuva apertou eu saio. Saio e deixo a chuva levar de enxurrada os pensamentos tolos, os planos infalíveis, um restinho de culpa, leva a saudade chuva!; não, não levo. Pensando bem, até que essa saudade é boa de ter, através dela ele visita meus sonhos onde passeamos lentamente por um boulevard parisiense (nunca estive em Paris, mas no sonho ele me mostra como é...), ou tomamos café no foyer do CCBB e rimos destilando rabugices, ironias, devaneios e demências...
Molhada, a saia que antes queria voar se cola ao meu corpo, e o sentido do tato sobrepõe-se aos outros graças a esse contato, eu corro mas não quero mais fugir, correr apenas ponto. Pra um lugar que não existe porque ainda não foi inventado. Ainda não foi inventando lugar onde caibam meus sonhos, meu desejo de liberdade, meu desejo de delírio, meus desejos todos enfim, meu Desejo que é um deus sem templo a habitar.
Abro a porta de casa, me dispo das roupas encharcadas e dos devaneios fortuitos, devia sentir frio mas meu corpo queima, entro no banho, escovo os dentes, choro.
Bebo o café mais amargo do dia e mergulho na profunda nostalgia que habita as tardes filminho-edredom...

terça-feira, 28 de outubro de 2008

Quatro bêbados

Somos quatro bêbados, eu, ela, ele, ela. A música da velha juke box soa onírica, talvez porque venha de um passado distante - custa-lhe atravessar a borda do tempo. Às vezes ponho moedas e desejo algo mais que a melodia suja arranhada no vinil da vitrola. Desejo um pedaço dele, ele um pedaço dela, ela um pedaço dele, ele um pedaço de mim. Nossa roda ciranda etílica quase sempre ensandesce e termina e começa e rodando a minha cabeça não consegue mais fixar os olhos dele e para nos dela e volta pros dele e acaba nos dela novamente... São castanho-claro-verde-embotados. São raros.
Ele acende um cigarro, traga, eu tomo um trago, ela bebe um copo, ele canta junto a melodia ancestral, eu também canto, eu sempre canto, todos cantamos quando estamos bêbados, todos cantamos agora.
Só quem escuta é Seu Osvaldo, que trouxe a juke box de um passado remoto e instalou aqui ao lado da cozinha, pra alegria dos bêbados, pra alegria das putas, pra alegria dos cães, pra nossa alegria, lentamente embalada ao som das notas espalhadas, esparramadas em nossos corpos que se esbarram e se tocam movidos unicamente pela certeza de estarem fadados ao máximo possível de união permitida aos seres de carne, sangue e sonhos quentes. Seu Osvaldo é testemunha ocular do momento exato em que somos arrebatados, confiamos nele. Somos foragidos do mundo-de-fora tentando esquivar-nos de fios débeis de sol que escorrem através das fendas miúdas da janela fechada. Somos quatro bêbados tentando ser um, tentando ser três, tentando ser dois, voltando a ser quatro... eu, ele, ela, ele, não necessariamente nessa ordem, nesse tempo, nesse espaço. Somos som, movimento, somos fúrias, tesão, somos o momento em que o objeto lançado ao alto pára suspenso por um fio invisível preso ao infinito, somos a soma de inúmeras frações de desejos varridos pra debaixo do tapete das almas ao longo dos séculos.
Somos tudo isso, ao mesmo tempo, agora, sempre. Fomos, somos e seremos a república etílica-onírica da juke box. Um não-lugar num tempo-espaço que existe apenas quando a música toca e nós a habitamos. Bebemos, cantamos e dançamos unidos pelos laços da sagrada bebedeira sacramentados por Seu Osvaldo, que abastece nossos sonhos com mais uma saideira, desejando espertamente que a fonte nunca seque. Mesmo que o sol já vá alto lá fora, quatro bêbados brindamos, eu, ele, ela, ele. Mais uma moeda, por favor, the show must go on.

terça-feira, 2 de setembro de 2008

Cinza e pó

O momento de olhar praquilo tudo e perceber que quase nada se distingue em meio à massa disforme, carbonizada. Quase tudo cinza e pó. Pequenos vestígios de plástico retorcidos formam estranhas esculturas, desafiando minha memória que insiste na tentativa quase sempre vã de recordar estes objetos em sua forma original. A ação do calor sobre o plástico é estranha e devastadora, mas olhando agora pra restos de pratos de acrílico e potinhos "tupperware", ouso dizer que é bela. Assustadora, mas terrivelmente bela. Penso em guardar os restos destes objetos, souvenirs macabros. Imagino que dariam uma boa instalação. Sempre tive uma queda pela arte contemporânea. Qualquer um pode ser artista. Por que não eu? Verdade que sempre fui um reles vendedor de banca de jornal do centro da cidade. Vocês podem até achar legal esse papo de ter todas as notícias do mundo ali, à mão. Mas o fato é que você se cansa. Cansa de tanto acesso à informação. Não quer mais ler aquele monte de notícias manipuladas. Um dia viro artista de vez, tenho meia dúzia de idéias que acho que podem colar. Uns lances com vídeo-arte...
Na verdade cheguei tarde demais. Os bombeiros já estiveram aqui, apagaram o fogo. E a perícia chegou surpreendentemente rápido, analisando todos os vestígios. Se conseguiram encontrar alguma possível prova das causas do suposto acidente, a esta altura já estão lá, preparando seus laudos. Tive medo de me aproximar demais, de ter de encarar a cena que encaro agora, remexendo nos escombros enegrecidos até ficar coberto eu mesmo por um pó preto que se gruda à minha pele de forma aparentemente ireversível. A imagem do caos em que se transformou sua casa imprime-se em minhas retinas irritadas. E você, ou o que quer que possa ter sobrado de você, não está aqui. Devem tê-la levado, sem deixar para mim sequer um farrapo de vestido queimado. Era algo que eu gostaria de guardar. Como lembrança.
Lembrança desta noite. Daquele vestido verde decotado que sempre que você usava eu ficava com uma vontade louca de te comer. Você sabia disso e vestia ele de propósito toda vez que queria me chantagear. Você nunca valeu mesmo o prato que comia, não passava de uma vadia peituda que sabia exatamante o que fazer para manipular os homens, como sempre fez com todos os outros antes de mim.
Você abriu a porta e me encarou com aquele seu olhar vazio de estátua grega. Me emputeci na hora. Me convidou pra entrar. Estava tomando uma taça de vinho. Aceitei a taça que você me ofereceu, sentando no sofá e olhando pros seus peitos. Visão que, junto com a primeiro gole do vinho, ajudou a arrefecer a raiva que eu sentia.
"Cê sabe que eu faço tudo por você", comecei."Até mesmo me despencar até aqui às duas da manhã."
"Sei. Sempre foi assim, né? Eu chamo e você vem..." (Você tentou, sem sucesso, imprimir um ar de descontração ao comentário...)
"Pois então. Seu servo mais fiel está aqui novamente. O que você tem pra me dizer que não pode esperar até a luz do dia?"
"Vou embora. Meu vôo sai às sete."
"Brasília?" retruquei, já adivinhando, "vai voltar praquele filho-da-puta?"
"Sei que é difícil pra você entender... mas estou ligada a ele por laços maiores do que os estabelecidos pelas relações humanas. É um lance cármico, sabe? Agora tenho certeza..."
"Mas esse cara quase te matou!" (falei isso ainda sussurrando, tentando processar o absurdo do que você acabava de me dizer) "Cê saiu de lá, largou família e um bom cargo no governo pra fugir desse sacana! Que papo é esse de 'lance cármico'?"
"Querido, Madame Cileide confirmou tudo! Eu e Clécio temos pendências de outras vidas pra resolver."
"Como é que você pode acreditar nessa merda? Uma pessoa como você, filha de desembargador poderoso em Brasília, que estudou nos melhores colégios, formada em direito... Só falta me dizer agora que foi abduzida e tá grávida de um ET!!!" (a essa altura eu já estava gritando...)
"Por isso nunca quis te contar. Porque sabia que você não me levaria a sério... Ficaria aí com esse seu jeito, fazendo piadinhas de mau-gosto..."
Esse foi o momento da explosão. Parti pra cima com tudo. Eu estava decidido a te segurar aqui, nem que pra isso precisasse te amarrar ao pé da mesa. Você correu e se trancou no banheiro, choramingando e me chamando de covarde, canalha, escroto, e mais um punhado de adjetivos tão carinhosos quanto.
Passei pela cozinha e fui até a área de serviço, procurando algo que eu pudesse usar pra te amarrar. Se você insistisse em ficar trancada no banheiro eu arrombava a porta e pronto. Te amarrava lá mesmo. Ouvi um grito, me virei e vi você ali parada na porta da cozinha.
"Eu nunca te amei, imbecil. Era tudo fingimento. Usei você enquanto serviu aos meus propósitos, e agora te descarto porque não me serve mais. Você não passa de um fracassado com delírios de grandeza! Como você pode achar que eu ia me apaixonar por um vendedorzinho de banca de revista! Eu te odeio, você é um lixo..."
Enquanto você continuava desfiando este rosário de elogios rasgados à minha pessoa, meus olhos pousaram por alguns segundos sobre a caixa de fóforos que repousava na pia, ao lado do fogão. Me lembrei de ter visto uma garrafa de álcool embaixo do tanque. Enquanto você ainda gritava, agarrei a garrafinha branca, e com ela na mão fui até a pia da cozinha em busca dos fósforos. Você se calou de repente quando eu joguei um bocado de álcool bem no meio do seu rosto, molhando a pele macia de princesa que você tinha. Você voltou a gritar e me xingar, sem conseguir abrir os olhos. Olhei pros seus peitos saltando do decote. Acho que suspirei.
"Te amo, Lúcia."
Risquei o fósforo.

terça-feira, 19 de agosto de 2008

Quem quer ser Gisele?

Ouvi falar de um ônibus que anda circulando nas noites de Chaotic City. Dizem que é um ônibus da linha 434, Grajaú-Leblon. Mas que também pode ser da linha 107, Central-Urca. A única coisa que se sabe com certeza é que todos que pegam este ônibus transformam-se em Gisele Bündchen. Pagam a passagem, passam pela roleta, e PUF! : Gisele Bündchen. Seguem ônibus adentro, rebolando as cadeiras. Homens, mulheres, crianças, anões... ninguém escapa.
Ouvi comentários de que Gisele tem sido vista em lugares improváveis. Atrás do caixa de um supermercado. Dirigindo um táxi. Esfregando o chão do Miguel Couto. Comendo pastel no Saara.
Especula-se que tudo isso faça parte de um plano colocado em prática por uma organização fundamentalista anti-humanidade, como forma de promover o fim definitivo da espécie humana. Este ônibus seria, portanto, o primeiro de muitos. Um test drive para verificar a eficácia da experiência. Afinal, segundo palavras supostamente ditas pelo próprio líder da tal organização, Giseles seriam incapazes de procriar entre si e, portanto, de gerar descendentes pra continuar perpetuando a espécie. Hum...Particularmente tenho minhas dúvidas. Dia desses assisti a um documentário sobre escorpiões no National Geographic. Descobri que há uma raça de escorpiões onde todos os indivíduos são fêmeas. Estava tão interessante que eu dormi e perdi a parte que explicava como, mas o fato é que elas se reproduzem. E muito. E se Gisele Bündchen for uma parente distante das escorpiãs de Lesbos? Daí os planos do líder funadmentalista amti-humanidade não só iriam por água abaixo, como dariam origem a uma nova espécie de seres humanos saradona e turbinada, com incrível capacidade de auto-reprodução! Assustador... Ele teria, inclusive, se defendido publicando um manifesto - ao qual, que fique bem claro, não tive acesso, apenas ouvi falar, à boca miúda - onde declarava, dentre outras coisas, que sua única intenção é acelerar o processo de auto-destruição já iniciado pela própria humanidade...
Há quem diga que não é nada disso. Que tal hipótese não passa de teoria de conspiração, delírio de gente paranóica. Supõem que o fenômeno do ônibus transformador de gente comum em Giseles Bündchens seja fruto da mente doentia de um velho cientista nazista, que vinha trabalhando às escondidas desde o fim da Segunda Guerra num projeto mirabolante cujo objetivo seria o de trazer mais beleza à humanidade através da uniformização radical. Comenta-se que, segundo o tal cientista, a diversidade, a mistura, estariam na raiz de um suposto "enfeiamento" cada vez maior dos seres humanos. Quem já ouviu falar das teorias dele costuma dizer que ele as defende com unhas e dentes em um brilhante tratado intitulado "Em Defesa da Uniformidade do Belo", onde ele enumera as vantagens políticas e econômicas da uniformização do ser humano em indivíduos de igual beleza, tamanho, forma e docilidade. Ah, e que ele teria desenvolvido um meio de reprodução assexuada das Giseles. Afinal de contas, sexo é uma coisa atrasada e contra-producente, que só serve pra atrapalhar a jornada do ser humano rumo a um futuro brilhante.
Na dúvida entre acreditar em uma ou outra teoria, prefiro acreditar nas duas. E por via das dúvidas evito o ônibus de madrugada. Mas fica a critério de cada um o próprio destino. Você pode querer continuar sendo você mesmo. Ou não.

quarta-feira, 16 de julho de 2008

De Madrugada

De madrugada escrevo.
De dia faço quase nada...
leio hqs e livros que eu já li,
durmo em frente à tv,
como comida congelada
abençoada por santas microondas.
De madrugada
sacudo um pouco do torpor
para fora do meu corpo,
faço pequenas ranhuras
no invólucro da letargia,
e despejo palavras
sobre páginas vazias...

terça-feira, 8 de julho de 2008

Quanto mais nos comunicamos

Mais nos desentendemos

Quanto mais nos desentendemos

Mais nos detestamos

Quanto mais nos detestamos

Mais nos destruimos

Quanto mais nos destruimos

Mais aumenta o consenso entre os sábios de Andrômeda e Alfa Centauro
De que não passamos de um bando de idiotas.

(em homenagem a Douglas Adams, autor do Guia do Mochileiro das Galáxias - não saia da Terra sem ele!)