quinta-feira, 16 de abril de 2020


Um poeta uma vez afirmou 
Que todas as cartas de amor são ridículas.
Pois agora eu afirmo, sem tirar nem pôr,
QUE SÃO BELÍSSIMAS TODAS AS CANÇÕES DE AMOR.
TODAS TODAS TODAS
As que falam do amor que não deu
As que falam do amor que nasceu
As que falam do TANTO TANTO TANTO
que quem perdeu um amor já sofreu.
As que falam do pranto pelo fim do que viveu
Daquilo que, talvez, dentro de quem amou
Morreu.
Do amor que nas curvas de uma estrada se perdeu
E das coisas que a gente, que ainda ama,  
Não esqueceu.
As de rima pobre, como esse poema,
As que nem tem rima
E isso não é um problema
Porque no fim das contas,
No fim do dia,
Qualquer forma de amor, para o poeta
vira poesia.
TODAS AS CANÇÕES DE AMOR,
MEU AMOR,
SÃO BELÍSSIMAS.
O que nos leva à duas simples conclusões:
O amor romântico é uma droga
Mas produz belíssimas canções.

(imagem Chiara Bautista aka Milk) 

terça-feira, 7 de abril de 2020

Meio Namastê, Meio Namastreta


Deste lugar de raiva onde me encontro, olho-me no espelho e não me reconheço. Serei eu mesma essa pessoa que carrega tanta fúria por detrás de pálpebras inchadas? Eu quero descansar. Quero me livrar desta mochila recheada de mágoas. Quero ser livre. Quero dançar.  Quero finalmente poder voar. Mas, por agora, não posso.

Eu não sou ódio. Eu não sou rancor. Este lugar onde estou não me define. Se estou aqui, neste momento, o que posso fazer é apenas mudar a direção do meu olhar. Olhar para dentro, mas também para o infinito. Porque olhar para dentro já é olhar para o infinito. Olhar para o todo, imenso e indissolúvel, e entender-me uma nano-partícula no universo em expansão, e ao mesmo tempo eu mesma do tamanho da expansão universal. Olhar nos olhos do abismo, por mais assustador que pareça, e encará-lo em toda sua profunda frieza abissal.

Um dia ainda pretendo absorver integralmente a ideia de que a vontade e o desejo do outro não me pertencem. Que nada me pertence. Nem meu corpo me pertence. Nem meus sonhos me pertencem. Me pertence apenas a possibilidade da aceitação deste não-pertencer. Todas e todos somos seres livres, pois para isso fomos feitos.

Eu me cuido e você me cuida. Princípio fundador. Mas nunca exigência. Será justo obrigar o outro a carregar o fardo das minhas expectativas? Minha busca é por bastar-me a felicidade que o cuidado com o outro me traz, no limite mesmo entre o reconhecimento e a dissolução do ego. Mas ainda há um longo caminho pela frente, e não é uma estrada de tijolos amarelos.

Por agora estou aqui nesse lugar – onde coabitam raiva, mágoa, desilusão, desamparo, tristeza, dúvida, confusão. Tenho pesadas bolas de apego emocional presas aos meus tornozelos. Sabendo que não é a este lugar que pertenço, ao mesmo tempo procuro entender porque acabei vindo parar aqui. Entendo a necessidade desta estadia dolorosa. Estou fortemente amarrada a uma montanha-russa emocional. Comprei um ticket para cada uma das atrações macabras deste parque de des-diversões, este circo de horrores. Ninguém nunca disse que o fim de uma tão longa jornada emocional seria uma praia deserta em um belo pôr-do-sol, mas estar neste lugar onde só há tempestade constante é muito mais assustador e triste do que eu jamais poderia prever. Ao mesmo tempo, sei que este embrulho no estômago é um sintoma da queda, e que se num dia eu despenco vertiginosamente, no outro eu subo e consigo encher os pulmões de ar antes de submergir novamente – e entre um e outro existem momentos de consciência da efemeridade não só desta dor, mas da própria vida e tudo aquilo que a constitui. Afinal de contas, um passeio de montanha-russa não pode durar para sempre, não é mesmo? Que no fim do dia um vento forte sopre tudo isso para longe de mim, e que ao olhar para trás eu perceba este lugar como uma ilha, distante e perdida em algum lugar do passado (mas não a ilha de LOST, porque eu odiei essa série e me recuso a fazer analogia com ela).

terça-feira, 31 de março de 2020

A MULHER NA VARANDA (OU REQUIEM PARA UMA ESTRELA)




Hoje eu vi uma mulher
Chorando na varanda.
Ela deitava no chão,
em posição fetal,
e se encolhia tanto, abraçando firme os joelhos,
como se quisesse guardar dentro de si.
Ela tentava recolher-se ao próprio útero
Refúgio da mãe terra
e ali se esconder para sempre.
Ela se contorcia, esforço inútil
em ocupar o menor espaço possível
num mundo onde talvez ela não queira mais viver.
Ela quer atomizar, reduzir-se ao quase nada
que agora habita o espaço
onde um dia batia o seu coração.
Olhando para a mulher chorando na varanda,
pensei em uma serpente
devorando o próprio rabo
Linda
Trágica
E letal.
Mas talvez ela fosse uma estrela
que deixou-se queimar toda
para enfim colapsar.
Uma mulher que já expandiu em supernova,
e num ato final foi-se embora
toda a luz e energia do seu corpo em implosão.
Eu chorei junto com essa mulher
em estado de entropia,
E as lágrimas no meu rosto
entraram em combustão.
Me encolhi e me enrolei
Colapsei e me guardei
dentro de mim.
Mergulhei no ventre escuro da mãe terra.
Porque essa mulher era eu
E eu, essa mulher, era ela.

domingo, 19 de maio de 2019

Sonho IV



Sigo por uma estrada ladeada por florestas.
Sinto que flutuo.
Na minha frente correm dois coelhos, talvez sejam lebres. Seu pelo é marrom.
Numa dança espiral, os coelebres se transfomam em majestosos potrinhos negros, de crinas ondulantes.
Na corrida-dança-espiral eles se entrelaçam, se afastam, se reúnem e se atravessam, como se desprovidos de substância córporea.
Eles se desvanescem em uma nuvem de poeira e folhas secas.
À minha frente, surge a figura imponente de Baphomet.
Ela/ele me encara com olhos caprinos.
Esse olhar atravessa-me a alma de ponta a ponta.

(imagem: Baphomet)

terça-feira, 7 de maio de 2019

O Amigo Morto do Facebook

Uma coisa que frequentemente me incomoda e intriga é quando um amigo morre e o perfil dele nas redes sociais continua lá, cheio de fotos sorridentes, posts espirituosos, declarações de amor à cara-metade. Murais e timelines acabam se transformando em verdadeiros epitáfios, onde parentes, amigos (e eventualmente inimigos) correm em romaria a deixar mensagens de despedida ou textos de exaltação ao morto. É lógico que as redes sociais não possuem um mecanismo capaz de detectar que determinado usuário bateu as botas, e em todas elas é o próprio que tem que cancelar sua conta – e na esmagadora maioria dos casos, nenhum de nós consegue prever a própria morte. Mesmo que alguns conseguissem, talvez não o fizessem por gostar da idéia de permanecer ali, virtualmente eternizados. Será que tem internet banda larga do outro lado?

 Pois bem. Eis que ontem, sem mais nem menos, recebi uma mensagem no facebook. Imagino minha expressão ali parado, com os olhos arregalados e a boca aberta, ao ver o nome que piscava em azul na minha tela: Fábio M. Garcia. Justamente um amigo de infância, falecido há quase um ano, com o qual eu não estabelecera muito contato nos últimos dez anos de sua vida. Minha primeira, espontânea e irracional reação foi de horror, hesitei em clicar ali. Mas num segundo momento retornei à razão, imaginando que algum amigo ou parente que soubesse a senha do falecido estava a fim de fazer uma brincadeirinha boba.

 “Fala, cara! Quanto tempo, hein? ;)”

 Fiquei ali com cara de bobo, pensando se dava uma resposta malcriada ou simplesmente ignorava. Afinal, tratava-se de uma brincadeira bastante sem-graça, de mau gosto até. Não sou religioso, nem supersticioso, muito menos mal humorado, mas sei lá... tem coisa na vida que a gente tem que respeitar né, existem limites - e não acho de bom tom mexer com gente morta não. Resolvi pagar pra ver até onde o “troll” era capaz de chegar.

 “Pois é... você sumiu...”
 “Bom, se você gosta de chamar isso de ‘sumir’ ... ou não me diga que você não ficou sabendo que eu abotoei o paletó, estiquei as canelas, comi capim pela raiz, etc? Hahaha :P”

 OK, aquilo estava começando a ir longe demais pra mim. Chega de piada com o finado, vou acabar com isso agora!

 “Olha aqui, companheiro, você não tem respeito com aqueles que já passaram desta pra melhor não? Essa sua brincadeira é de um tremendo mau-gosto! Se a intenção foi me assustar, sinto muito, mas não acredito em fantasmas. Se foi apenas rir às custas de alguém que não está mais aqui pra se defender, só posso dizer que sinto desprezo por você.”

 “Que é isso, rapaz! Sou eu, o Fábio! Pelamordedeus, pára com isso e me ouve... você não sabe o que eu tive que passar, quantas regras tive que infringir, quantas mãos tive que molhar, pra chegar até o ponto de conseguir permissão pra estar aqui e agora, chateando contigo! Vou te contar, isso aqui é muito parecido com um colégio interno... mas calma aí, que já tô falando demais e saindo do foco, me desviando do motivo que me levou a tomar essa atitude extremamente drástica pros padrões daqui...”

 “Chega!!! Vou te excluir! Você morreu, quer dizer, o Fábio morreu, tá morto e enterrado, já virou comida de vermes – vermes como você que são capazes de uma atitude bizarra dessas!”

 “PERAÍÍÍÍ, CARAAAA!!! Não me exclui ainda, calma, me ouve, ou seria melhor dizer ‘me lê’, hehehe :P... Vou provar que sou eu: lembra daquela noite em que...”

 Daí algo inesperado, absurdo e surpreendente aconteceu: ele citou uma estória acontecida há treze anos atrás, um caso envolvendo sexo, violência gratuita e coca-cola com menthos, uma daquelas noites que você empurra pra debaixo do tapete da memória porque envolve uma série de contratempos verdadeiramente constrangedores e brutais, os quais você faz questão absoluta não só de não lembrar, como também de fazer um pacto de silêncio eterno com todas as partes envolvidas. E, no caso, a terceira parte envolvida – uma antiga colega do ginásio - também estava morta. Senti os pêlos da minha nuca se arrepiando devagar. Como alguém poderia saber daquela estória??? Calma, calma. Respira. Obviamente o Fábio, aquele filhadaputa mentiroso, havia quebrado o pacto de silêncio e contado a alguém os embaraçosos/comprometedores acontecimentos de treze anos atrás. E agora esta pessoa estava aproveitando não só pra tirar uma com a minha cara, mas talvez até pra, quem sabe, me chantagear? Comecei a suar frio. Resolvi ir direto ao ponto.

 “Olha aqui, se a sua intenção é me chantagear, vamos logo com isso. Quais são seus termos, porra???”

 “Caniço, Caniço, por tudo o que é mais sagrado, pela alma da sua vovozinha Genoveva, acredita em mim, cara!”

 ... Ó meu deus! Ele estava usando o mesmo apelido que usava pra me chamar quando éramos uma dupla inseparável na infância. E meu pavor só fez aumentar quando ele começou a escrever em código, um código que nós dois inventamos quando crianças pra trocar cartas e planos de dominação do mundo que só nós entenderíamos! Não havia motivo algum pra que ele tivesse revelado esse código pra alguém... Mas, mas... Será... Meu deus, será possível que?... Será possível???

 “Olha aqui Caniço, eu não vou poder demorar muito mais tempo aqui. Mas preciso te avisar uma coisa”

 “O quê... o que é?” Eu já não sabia mais em que acreditar, a garganta seca e o coração na boca.

 “Você vai morrer. Esta noite.”

 “O quê???.... Não... não pode ser... eu estou saudável...”

 “Pode ter certeza. Desta noite você não passa. Infarto fulminante.”

 Fiquei completamente imóvel, os olhos pregados na tela, a cabeça a mil, aquilo era possível? Minha mente finalmente sucumbiu ao terror: “Meu deus... não sei o que fazer, Fábio, por favor me ajude!”

 “Foi concedido a você o direito de me fazer uma pergunta. Só uma. Talvez tirar alguma dúvida a respeito da passagem ou da vida após a morte possa, de alguma forma, aliviar seu medo e sofrimento, camarada.” Minha cabeça girava e as pernas tremiam. Minha mente se debatia entre o pavor insano e irracional, a negação, o desespero, que já haviam suprimido qualquer resquício de razão.

 “Vai logo, cara, faz a pergunta, não temos muito tempo”

 Consegui controlar por segundos meus espasmos de medo.

 “A internet, aí do outro lado... é banda larga?”

 Nenhuma resposta. Nem uma palavra apareceu na tela. Alguns segundos se passaram até que eu percebesse que a minha própria internet banda larga me deixara na mão naquele exato instante!

 Pelo sim, pelo não, deletei meu perfil do facebook.

domingo, 7 de outubro de 2018

Sonho III

Em um lado de uma sala bem iluminada com lâmpadas frias, sem nenhuma janela, estão três homens sentados num sofá. Do outro lado, de frente pra eles, está um outro homem, sentado numa cadeira (ele está nu mas isso só é percebido um pouco mais pra frente). Entre eles, apenas uma mesa de centro. O homem na cadeira tem um olhar extremamente horrorizado e um corte profundo em toda a extensão do queixo, como se alguém tivesse tentado esfolar seu rosto. Há um pedaço de pele caindo, pendurado em seu queixo, com um pouco de carne grudada. O homem com o corte no queixo pergunta baixinho "O que aconteceu durante a noite?". Um dos três homens no sofá, o que está sentado no meio, responde com um sorriso sarcástico: "Você não gostaria de saber". Neste momento o homem na cadeira dá um grito de dor profunda, e então percebe-se que o saco dele está enorme, mas muito grande mesmo, com tamanho e aparência de uma jaca. Ele uiva de dor e coloca a mão no saco, que de repente se rompe e de lá de dentro vão saindo fofinhas raposas bebês.


(imagem: Kitsune, raposa mítica japonesa de nove caudas, por Utagawa Kuniyoshi)

sábado, 7 de outubro de 2017

Burlesque Lover


Quero fazer movimentos fluidos
no palco apático da tua libido.
Fazer em teu corpo, comedido,
Estático, encolhido,
o corte profundo de um simples afago.

(na foto, Luz Del Fuego)