segunda-feira, 3 de maio de 2010

Reflexão do dia

...queria me refugiar num mundo de tecidinhos com estampas fofas de cupcake e passarinhos, onde o prato do dia seja brigadeiro com sorvete e as pessoas só precisem de um potinho de glitter e um jogo de 12 canetinhas coloridas pra ser felizes para sempre. (imagem: Mika - Lollipop)

quarta-feira, 28 de abril de 2010

(Mal)ditos de Nietzsche

"O amor a uma só pessoa é uma barbaridade, pois ele é praticado às custas de todas as outras. Também o amor a Deus"
Nietzsche, depois de uma suruba.

"'Eu fiz isso', diz minha memória. 'Não posso ter feito isso' - diz meu orgulho, e se mantém inexorável. Por fim - a memória cede."
Nietzsche, depois de um porre daqueles.

"Graças à música, as paixões gozam a si próprias."
Nietzsche, na saída do show do Wando.

"As grandes épocas de nossa vida são aquelas em que ganhamos a coragem de rebatizar o nosso mal como o nosso melhor."
Nietzsche, após ganhar o campeonato de purrinha com um palitinho escondido na manga.

"Por amor à hmanidade, às vezes se abraça uma pessoa qualquer (porque não se pode abraçar todo mundo), mas precisamente isso não se deve revelar a essa pessoa qualquer..."
Nietzsche, depois de levar um toco e partir pro plano b

"O que é feito por amor, ocorre sempre além do bem e do mal."
Nietzsche, ao ser pego no flagra pela esposa pulando a cerca com a cunhada

"Na vingança e no amor, a mulher é mais bárbara que o homem."
Nietzsche, ao ver seu carro destruído pela fúria da mulher após ser pego no flagra pulando a cerca com a cunhada.

"Em circunstâncias pacíficas, o homem guerreiro investe contra si mesmo."
Nietzsche, na seca, após tocar uma punheta.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

O enfado mora ao lado



Eu podia falar de alguma coisa que eu gosto. Mas quer saber? Preciso com urgência falar de coisas que eu não gosto. E na lista bem longa de coisas que me irritam há um item capaz de me despertar especial desgosto: VIZINHOS. Vizinhos são uma verdadeira praga do mundo contemporâneo, e se você vive em um centro urbano é praticamente impossível se ver livre deles. Vizinho é que nem bactéria da flora intestinal: todo mundo tem. Num mundo ideal isso não seria motivo de dor-de-cabeça (às vezes literalmente). Mas como o ser humano é um bicho que ignora totalmente o fazer a sua parte em prol do coletivo, ter tantos seres "sem noção" morando tão próximos a você acaba sendo fonte de inúmeras aporrinhações.
Sou uma pessoa educada e cordial (na maior parte do tempo)e costumo cumprimentar meus vizinhos quando nos cruzamos nos corredores do prédio. É uma regrinha básica da boa convivência que não arranca pedaço de ninguém. Trocar meia dúzia de palavras sobre o tempo no elevador também é válido. O problema é quando o cara acha que um simples "boa noite" é um convite à uma conversa mais longa ou um pedido de amizade. Como aquele sujeito que não pode ouvir um "como vai?" que já responde logo "nada bem" e começa a passar todo o prontuário médico dos últimos meses enquanto você suspira e boceja de canto de boca. Não tenho a menor intenção de que uma relação de vizinhança vá alem do cumprimento respeitoso e da troca de pequenos favores cordiais, quando necessário. Não que seja impossível desenvolver uma amizade com alguém que vive no apartamento ao lado; quando acontece, pode ser ótimo. Mas amizade é algo que surge da identificação mútua. Amizade não se impôe.
Moro em uma área totalmente residencial. Comércio zero. Se vou fazer um bolo e percebo que não tem ovo, não há outro jeito a não ser apelar pra boa vontade do vizinho em me ceder uns dois ou três ovinhos. Só que isso acaba dando mais margem ainda pra vizinhos carentes e desocupados acharem que podem "forçar amizade". A grande maioria dos moradores do meu prédio é formada por senhoras que acredito não terem outra ocupação na vida a não ser a de fiscalizar - e muitas vezes se intrometer - na vida alheia. Na verdade nem sei se é a grande maioria, porque nunca fiz a menor questão de conhecer TODOS os moradores do meu prédio, mesmo sendo um prédio pequeno. Volta e meia vejo alguém com chave destrancando a portaria com ares de morador que eu nunca vi antes. Mas elas parecem ser maioria, mesmo que talvez não sejam, porque fazem questão de marcar presença. Tocam a campainha na minha casa às sete da manhã (ódio!), e nunca é uma emergência maior do que "minha toalha caiu na sua varanda". Aproveitam o momento de pedir uma xícara de açúcar pra entrar no meu apartamento, me alugar e bisbilhotar. Ligam pro meu trabalho (!) no momento em que estou mais ocupada pra me dizer pérolas do tipo: "Estou procupada porque o seu gato está miando". Minha resposta: "ok, continue atenta, quando ele começar a latir você me liga novamente".
Fazem fofoca umas das outras e de todos. Tem delírios de perseguição, morrem de medo de assalto trancando tudo a dez chaves e cinco cadeados. Pior: falam entre si aos berros pela janela! Isso é uma coisa que me provoca irritação profunda. Custa muito pegar o telefone e ligar pra fulana do andar de cima??? Precisa colocar a cara na janela e gritar "Bereniiiiiiiiiice! Fiz um broa de milho que tá divina, manda a Mariazinha vir aqui pegar!", daí a Berenice responde, a outra contesta, e pronto, instala-se um diálogo berrado e lá se foi meu sono às seis e meia da manhã, pra nunca mais voltar. Quando eu ouço música, sempre num volume razoável e num horário idem, lá vem a patrulha da reclamação. Gritar alto às seis da manhã pode, música em volume médio às duas da tarde, não.
Aliás, a questão musical é um caso à parte, que daria uma outra crônica inteira. Tudo bem que gosto é que nem bunda, cada um tem a sua, mas as bizarrices vão do evangélico ao último sucesso da Lady Gaga, passando por sertanejo, axé, enfim, só coisa fina.
Mas a coroa eterna de vizinha mala mor certamente é da Dona Odete. Que morreu há um ano, tornando meus momentos em casa um pouco mais tranquilos. E juro que eu não tive nada a ver com isso, embora tenha tido vontade mais de uma vez de levar um bolo recheado de chumbinho pra ela, ou talvez convidá-la pra um chazinho de cicuta. Quando eu enchia a piscina do meu filho no verão, ela corria a interfonar lá pra casa aos berros de "tá desperdiçando ááááááguaaaaa!" e quando eu perguntava "quem tá falando???" ela batia o interfone. Nunca veio falar isso na minha cara. Uma vez eu estava tomando sol na varanda, com meu filho brincando na piscina, e ela chegou ao cúmulo de pegar o interfone e gritar no meu ouvido: "não pooooode ficar na varanda em trajes inadequadooooooos!" Meu erro foi tomar sol de biquíni. Todo mundo sabe que o traje adequado pra tomar sol é uma burka, e eu querendo transgredir as regras usando biquíni. Tsc, tsc.
Enfim, são inúmeras as encheções de saco. Vou parando por aqui pra não encher também o saco de quem lê. Mas quem não tiver pelo menos uma estória de vizinho mala pra contar é porque provavelmente é um eremita que vive nas montanhas longe da civilização.

(na foto, Clara Bow com cara de enfadada)

quinta-feira, 8 de abril de 2010

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

No fim... só


Obrigada, querido. Fiquei bêbada com duas cervejas, morri de tédio e tentei em vão acompanhar o papo do casal apaixonado na mesa ao lado.
Nada que uma boa dose não cure. A minha tendência à depressão, não a paixão do casal, que fique bem claro. (Será que é inveja esse amargo no céu da boca?). É isso: uma boa dose de auto-crítica e depois de cachaça, pra equilibrar. Acho que comigo é assim que funciona. Ou disfunciona?... Essa minha mania de auto-análise ainda acaba me matando. Sempre acho que posso dar uma explicação melhor pras minhas próprias neuroses do que um cara que passou anos estudando pra isso. Engraçado pensar nisso agora porque foi você o primeiro a me dizer. E, ironicamente, aqui estou eu: puta da vida contigo e te parafraseando! Sintomático?
Sinto mesmo é pena quando olho ao redor e percebo que além de mim há mais dois solitários. Um na mesa em frente à esquerda, um recostado no balcão. Um bebe cerveja como eu, o outro vira uma dose de algum destilado forte. Por um segundo passa-me pela cabeça a idéia de chamá-los a juntar-se a mim, solitários, rejeitados, abandonados, uní-vos! Idéia rapidamente banida por um resquício de bom-senso que o último gole de cerveja não conseguiu - sei lá por que milagre - aniquilar por completo.
Toda essa fantasia tola na verdade serve apenas pra adiar o momento de encarar a dura realidade: não tenho dinheiro pra pagar a conta. Sentei, esperei por você, bebi, e não tenho dinheiro. Esperava que você pagasse a conta, imaginando - santa ingenuidade - que era o mínimo que poderia fazer por mim a essa altura do campeonato.
Peço mais uma pra pensar... ou pra parar de pensar?
Você não veio. Você não vem mais, é fato. Tô aqui há duas horas e os solitários de tão bêbados já me lançam olhares no mínimo intimidadores, e o casal da mesa ao lado já foi dessa pra uma provavelmente muito melhor. Encaro o relógio de madeira à minha frente e percebo que o ponteiro dos minutos gira a uma velocidade bem acima do normal. O tempo tá passando mais depressa, parece que perdeu a graça a brincadeira de me torturar. A diversão agora é fazer chegar mais rápido o momento do bar fechar, quando eu vou ter que explicar prum sujeito suado e mal-encarado com um bigodinho gorduroso por que diabos sentei num bar e bebi sem ter dinheiro pra pagar.

(imagem: "A Persistência da Memória", de Salvador Dalí)

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Cama de Dossel

Mais um dia cinza, desses de céu cor-de-chumbo que quer desabar todo sobre a minha cabeça. Reina a melancolia. Deitada na minha cama posso ver da janela um pedacinho do céu que ameaça em surdina. Mas ele é pequeno e débil visto daqui, como um quadro na moldura da janela. Um céu bebê de chumbo, controlado e contido, adormecido num leito de esquadrias de alumínio, nana-nenê. Me deito na cama porque nela mandei instalar um dossel, que era algo que eu sempre quis ter numa cama: um dossel. Assim refugiada numa espécie de tenda que remete às lendas das mil e uma noites e às princesas encantadas dos contos da minha infância, um enorme conforto me transporta pra dentro do sonho sem estar propriamente adormecida. Minha cama é como um sólido recorte no mundo real, repleto de espaço etéreo preenchido apenas pela fantasia. Um lugar onírico onde reina o meu desejo, esse desejo louco e latente e embriagado e imensurável, esse desejo ao mesmo tempo de vida, de sonhos, de delírio, de loucura. Esse desejo que pulsa e grita e que frequentemente transborda e se espalha em todas as direções numa explosão impossível de ser controlada.
Ao mesmo tempo o dossel, que contêm este espaço, o delimita geograficamente, e dentro dele me sinto segura como em nenhum outro espaço físico do planeta. Ali dentro meu desejo pode explodir como bomba H, como tsunami, ou como colisão de gigantescos conglomerados de estrelas, sem varrer do mapa japões, indonésias ou galáxias inteiras. Sem causar maiores transtornos ao resto da humanidade, que afinal de contas ninguém tem culpa do fato de eu sentir demais. Nem eu mesma, aliás. Nem a culpa, aliás. (Nem mesmo a própria culpa, esta pobre serviçal da moral dos tempos, tem absolutamente nada a ver com o fato de fazer-se sentir em momentos completamente inadequados... é a consciência sempre vigilante que a intima a comparecer como o algoz dos sentimentos mais profundamente enterrados nos recônditos da alma humana).
Aqui me refugio e no refúgio meu desejo se espalha, e o dia cinzento e o medonho céu de chumbo são vagas lembranças do mundo distante. Meu quarto e meu corpo são feitos da mesma matéria, e ela pulsa. Eu fujo pro sonho porque é nele que sempre me busco, e quando quase me encontro mais fundo me escondo, porque esse sempre foi meu passatempo favorito, e parar de me esconder seria me entregar definitivamente ao caminho sem volta que nos leva à vida totalmente adulta. E eu definitivamente não quero abandonar a criança que foge pra debaixo da cama de dossel, pois sinto que ela precisa de mim tanto quanto eu preciso dela, não há possibilidade de uma sem a outra. Mesmo que todos discordem e o mundo me diga o tempo todo “cresça!”, eu sigo sendo a menina de tranças, a menina de rosa, a menina de bandeide no joelho que ama uma boneca chamada... droga, não me lembro mais o nome dela..
Essa menina já tem em si todo o desejo do mundo, e apesar disso não tem o medo de deixá-lo transbordar. Essa menina não precisa do dossel na cama a não ser nas fantasias de princesa adormecida. Ela não precisa criar um espaço para a fantasia, porque vive inteira dentro de seu território. E o desejo da menina não vira tsunami ou bomba H, muito menos explosão de supernova, porque a menina o tem transbordando num fluxo contínuo por cada poro a todo o momento.
A menina sou eu e eu sou a menina. Tento apenas equilibrar o jogo, porque às vezes, muitas vezes, bem mais do que eu gostaria, eu preciso sair debaixo do dossel da cama pra encarar um céu cinzento disfarçando o medo que eu sinto, que não é bem-visto pelos olhos do mundo. E todo esse desejo que tenho, impertinente, que não cabe num templo ou numa caixa de sapatos, esse desejo que explode no universo infinito de uma cama de dossel, tenho que guardá-lo nos limites do palpável, que assim fica mais fácil de mantê-lo adormecido.

sábado, 1 de agosto de 2009

Retorno

Você parado ali na porta da frente, olhando pra mim com olhos inchados – de raiva, bebedeira ou sono atrasado?...
Despertei subitamente do estado de vigília que sempre me assolava quando me punha a esperar – uma espécie de transe, de quase sono sem sonhos; seus olhos tontos, olhos perdidos...
Me aproximei de você pronta a te dar um abraço, te levar pra cama, te cobrir carinhosamente, como só uma mãe o faria, talvez até cantarolar uma velha canção de ninar - como nos bons tempos, lembra-se? Eu mesma não consigo mais lembrar...
Você parece tão perdido em devaneios, o olhar tão insano, olhando através do meu corpo, através das paredes, dos velhos quadros empoeirados, vislumbrando antigos mundos detruídos, civilizações ancestrais dizimadas pelas chamas ou pela fúria de mares revoltos, impérios destroçados pela fome, pela peste ou pela guerra... Tudo isso eu via refletido nos seus olhos, e a ansiedade de te amparar, de te embalar, de te confortar e espantar seus pesadelos crescia dentro de mim na tentativa de vencer a letargia que dominava meu corpo e meu espírito.
Eu estava hipnotizada. Hipnotizada por aquele seu olhar, lunático e inflamado, vagando junto com ele por tantos mundos perdidos, enxergando através dos seus olhos todas as atrocidades cometidas ao longo de todas as eras – os mais requintados métodos de tortura, os mais diversos tipos de execuções sumárias, centenas de cadáveres empilhados sobre ruínas de destroços mal-cheirosos, batalhões de crianças famélicas com cabeças desprovidas de rostos - tudo passava diante de mim através dos seus olhos, fazendo-me sentir o que você sentia, todo o seu desespero, todo o seu desprezo pela humanidade, seu flerte constante e apaixonado com a Morte. Por um instante pude compartilhar com você, e por fim compreender, a misteriosa atração que a velha senhora exercia, o desejo quase incontrolável de atirar-me para ela e ser envolta em seus braços frios, deixando-me embalar por sua canção derradeira.
Mas alguma coisa estranhamente distante dentro de mim apagou tais devaneios, talvez fossse a própria essência da vida lembrando-me que era apenas você, o ser que eu amava, e não aquele anjo do apocalipse de olhar inflamado, a expressão refletindo a da própria Morte. Vencendo num mesmo impulso o torpor da hipnose e o terror das visões compartilhadas, consegui finalmente mover-me em sua direção, e embora você estivesse a talvez uns dois metros de distância de mim, meus pés descalços percorreram longos vales e atravessaram montanhas, sentindo as pedras arranhando-lhes as solas, a grama molhando-os, a terra entrando-lhes por entre os dedos. Nunca aquele vestíbulo havia se estendido por tão longas distâncias à minha frente.
Finalmente te alcancei – músculos exauridos, pernas trêmulas - ; por quanto tempo teria estado te esperando? Horas, dias, semanas, ... simplesmente não conseguia me lembrar, porque não tinha mais importância, você estava ali, o terror incondicional do seu olhar cessara, e você agora me olhava nos olhos e seus olhos pareceram enxergar minha alma, pareceram ver a ansiedade que a dominava.
Sem mais poder me conter, estendi os braços para você, e você se aproximou, mais devagar do que de costume, e de repente uma centelha de dúvida acendeu-se em algum lugar de meu espírito. Ainda havia algo de insano e inescrutável no seu olhar –“algo de podre no reino da Dinamarca”, murmurou um Hamlet decadente das profundezas do meu inconsciente; mas tudo não durou mais que uma fração de segundo... estávamos abraçados, e a dúvida em minh’alma dissipou-se no calor daquele abraço, e todo o meu corpo regozijou-se daquele contato, e o meu prazer foi tão intenso que quase não pude sentir o toque frio e cortante da lâmina que deslizava em meu pescoço, cortando-me a garganta, fazendo saltar da minha jugular um jorro quente e úmido que inundou nosso abraço em uma torrente vermelha e pulsante. Só pude sentir a frieza da lâmina quando já era tarde demais, e aceitei o destino que você me impingiu com estranha subserviência, deixando o peso do meu corpo desabar sobre você, satisfeita por morrer em seus braços, a vida saindo toda de dentro de mim através do corte em minha garganta, esvaindo-se naquele jato morno, rubro e pegajoso. Nunca, até aquele instante, poderia ter imaginado que a vida, ao abandonar o meu corpo, teria um aspecto tão orgânico, tão imanente. O momento da morte nada tinha de metafísico: era apenas sangue jorrando por uma veia cortada.
Mesmo quando a visão sucumbiu, e os outros sentidos aos poucos também, esta foi a impressão que ficou. Não havia mais nada. Você me matou.