sábado, 13 de junho de 2009

Para Ian, em algum lugar do tempo

Ao observar-te assim, adormecido, uma imensa ternura toma-me de assalto, uma ternura tão grande que é capaz de inebriar, de transbordar, de fazer sentir o peito apertar-se de súbito, e fazer emergir ao leito dos olhos furtivas lágrimas incontíveis. Incontidas, elas rolam, tornando turva a imagem do teu pequeno corpinho a ronronar, deitado de bruços, o lento movimento das costas acompahando o ritmo da tua respiração. Teus olhinhos, mesmo fechados, selados por fileiras de lânguidas, longilíneas pestanas, movem-se na velocidade de cada fragmento de sonhos, os quais vives intensamente enquanto tua mãe ternamente te observa.
Quase posso sentir tempo e espaço cristalizando-se pouco a pouco, em conivente esforço de eternizar a existência deste instante. Queria viver para sempre o instante de olhar-te adormecido.
Este sentimento – que me custa até mesmo chamar de amor, mas que de amor, por ora, chamarei, é algo que só as mães entendem. Só as mães conhecem este amor que pode ser ao mesmo tempo altruísta e egoísta, pois são capazes de sacrificar a vida pela integridade do filho, enquanto consideram-no, para sempre, um pedaço indissociável de sua própria alma.
Teu sono é velado por tua mãe, e também por toda a magia do universo.

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Sonhos

(I)
Nossa casa/abrigo fica à beira-mar. Não de frente para a praia, mas sobre um deque que avança mar adentro. Não é uma praia deserta, é uma praia urbana, como uma Ipanema em um lugar fora do mundo.
Somos três vivendo ali. Passando uma temporada talvez, há um clima no ar de "isto é especial e não vai durar pra sempre". Mas ao cair da tarde saímos apenas eu e ele para ver de dentro do mar o espetáculo dos fogos de artifício. Os fogos estouram bem longe, no horizonte, olhamos e o sentimento mútuo é de maravilha, de estar compartilhando algo realmente incrível. Saímos da água, pessoas caminham no calçadão sob a luz dos postes que acendem todos ao mesmo tempo, nós bebemos e rimos e celebramos o encanto daqueles momentos. Passamos a noite assim, na praia bebendo e rindo e trocando olhares que dizem muito. Há uma forte tensão sexual no ar, mas não nos beijamos. Parece que não é preciso.
Dia seguinte. Acordo cedo e me deparo com os dois, ele e ela, tomando café-da-manhã na cozinha. Estou feliz, tudo é muito luminoso. Olho meu rosto no espelho do banheiro e ele me parece estranho. A pele está descascando por causa do excesso de sol, e há manchas meio escuras como das pessoas que têm vitiligo. No entanto me acho especialmente bonita naquele momento, com meu cabelo preso num rabo de cavalo com cachos que chegam à altura dos ombros. Ponho uns óculos escuros de armação branca e contemplo a imagem no espelho.
Volto à cozinha onde os dois estão rindo. Ele então comenta: "Eu e XXXX (o nome é pronunciado de forma ininteligível) podíamos ter ficado ontem... acho que ficamos"... eu respondo com um sorriso e passo por trás dele dando a volta pra chegar à geladeira. Percebo então sobre a mesa papéis de polenguinho amassados, e me lembro imediatamente dos três que escondi ontem na geladeira, atrás de um pote de mostarda de dijon, embaixo de um pacote de queijo ralado, em meio às abobrinhas na gaveta de legumes. Sinto um misto de raiva e desespero me subindo à cabeça (parece que polenguinhos são mesmo um tesouro por aqui), mas uma segunda olhada em direção à mesa me revela que não são polenguinhos mesmo, mas algo parecido, como polenguinhos de marca genérica (o nome da marca era Regina...?). Respiro aliviada.

***

(II)
O narrador, de personagem, passa a observador. Mas pode, às vezes, ver através dos olhos do protaganista, e sente o que ele sente o tempo todo, como um deus onisciente. O protagonista, por sua vez, é um rapaz que deve ter uns vinte anos e é muito bonito. Tem cabelos louros que à primeira vista parecem curtos, mas logo percebe-se que ele mantem um estranho rabo de cavalo que quase sempre repousa sobre o ombro esquerdo. Ele está num navio rumo a Cingapura. O objetivo de sua viagem é reencontar a moça que é seu grande amor (é uma aventura romântica). Mas o navio em que ele viaja é uma espécie de embarcação que carrega ilegalmente através dos mares gente que não tem condições de arcar com as despesas de uma viagem dessas. Ele observa o convés do navio e a cena que vê é bastante grotesca. Todas as centenas de pessoas ali presentes são incrivelmente desformes, e no entanto cantam e dançam, e a cena se parece com um festim medieval povoado de demônios, como um quadro de Bosch. Há inúmeras psicinas de diversos tamanhos espalhadas por ali, e muitas daquelas pessoas sentam-se ao redor com as canelas na água. Ele observa uma dessas piscinas, onde um homem amarra o último dente que tem na boca ao corpo de uma enorme carpa, e quando esta salta na água leva consigo o dente amarrado ao cordão, para gozo e delírio do pequeno grupo que observa a cena. Nada daquilo parece real. Ele se aproxima da beira de uma piscina grande e olha para a água. Um tubarão de tamanho descomunal pula de repente para fora, num susto, e cai no chão se debatendo, enquanto algumas pessoas correm assustadas. Ele não corre mas mantêm-se inerte, paralisado pelo estranho fascínio que a visão do tubarão lhe proporciona. Quando dá por si percebe, cada vez mais perturbado, que o enorme animal é feito de espuma, como um fantoche gigante, e de dentro dele sai um rapaz, que vem caminhamdo em sua direção. O rapaz é simplesmente a coisa mais bonita que ele já viu em toda a vida, e o momento é impregnado de uma tensão que é quase palpável. A beleza do garoto saído da boca do tubarão é diferente de tudo que ele já vira, diferente inclusive da sua própria beleza, que é mais dentro do padrão, mais lugar-comum. O garoto-tubarão é bem magro, seus cabelos são pretos, seu andar é felino, seu olhar é carregado de uma energia feminina destruidora, e quando os dois estão frente-a-frente eles se encaram, o garoto-tubarão passa as costas da mão pelo rosto do protagonista, ele percebe-se neste momento completamente arrebatado, louco de paixão, e nada mais importa. (imagem: THE HARROWING OF HELL -HIERONYMUS BOSCH)

terça-feira, 14 de abril de 2009

máscara

Ostento um sorriso meticulosamente esculpido
Na máscara etérea que escolho para o dia.
Por este motivo não percebem que eu sofro
Aqueles que me olham na rua de relance
e os que me dirigem cordiais saudações
todas as manhãs a caminho do trabalho.
Apenas um olhar atento – mais que atento, comprometido,
notaria talvez, quem sabe,
por sob o manto volátil que encobre o meu rosto,
uma gota equilibrando-se no canto do olho esquerdo,
como que a desafiar a lei da gravidade,
recusando-se a rolar maçã do rosto abaixo
até escorrer pelo meu queixo afora,
cumprindo assim seu inexorável destino de lágrima.
E ainda um leve, quase imperceptível pulsar
no canto direito do meu lábio superior,
sintoma de um desejo inconsciente de pranto
que acaba por nunca se materializar.
Porque este olhar, ah, este olhar...
Este olhar, meus senhores, simplesmente não existe.
Porque o comprometimento do olhar com o objeto olhado,
a verdadeira cumplicidade da córnea humana
com cada partícula luminosa responsável
pela formação da imagem enxergada,
esgotou-se no cansaço da oferta em demasia.
Hoje apenas derramamos olhares descompromissados,
pois há tanto pra ver e tão pouco tempo,
e tanta fadiga em nossas retinas exauridas...
Sigo, portanto, carregando sobre a face
a minha reluzente máscara kabuki,
e todo o mundo há de crer ser esta expressão vazia,
estanque, torpe, imutável, sorridente,
legítima representante do que carrego em minha alma.
E sua verdadeira expressão? – perguntariam, então, os senhores...
Esta permanecerá eternamente escondida, sepultada,
ao longo de toda a minha existência,
condenada à constante iminência
do pranto impossível de ser consumado...

sexta-feira, 13 de março de 2009

Junkielove morning

Amanhecemos num pé-sujo da Lapa,
as putas e os travestis já se foram.
Mais um copo, mais um beijo,
sabor de cevada e nicotina numa mistura indigesta,
e o sol nascente me deixando mais letárgica, mais letárgica, mais...
Será que é possível estar mais bêbada? Pago pra ver.
E você acha graça, provavelmente pensando
“existe alguém no mundo mais junkie do que eu!!!...”

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Música pro fim do carnaval

Mais um carnaval que termina...
Eu ainda carrego o estandarte com um coração vermelho pintado partido ao meio.
Sambei sobre cacos de vidro
só pra ver se a vida devolve tua imagem perdida na escola de samba.
Ah, se eu pudesse ser bamba
Ah, se eu pudesse ser tua
Ah, se eu pudesse ser todo o confete que desce no meio da rua...
Pra colar no teu corpo
Pra rolarmos no asfalto
pra cair lá do alto e forrar de poeiras de estrelas cadentes
onde você pisa.
meu coração ainda precisa
carnaval o ano inteiro
pra esquecer que no passado te ganhei e me perdi.
Meu coração tá cansado de sambar descompassado
no carnaval que termina te perdi.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

He's so vicious

Tenho um corte no canto do lábio inferior direito que dói quando ele me beija. Gosto dessa dor e quando o corte cicatriza eu mordo o canto do lábio até sangrar, pra doer de novo. Quando ele não está comigo passo a língua sobre o corte, devagar. É como se ele me beijasse. É um vício que não consigo largar. É um vício.