domingo, 19 de maio de 2019
Sonho IV
Sigo por uma estrada ladeada por florestas.
Sinto que flutuo.
Na minha frente correm dois coelhos, talvez sejam lebres. Seu pelo é marrom.
Numa dança espiral, os coelebres se transfomam em majestosos potrinhos negros, de crinas ondulantes.
Na corrida-dança-espiral eles se entrelaçam, se afastam, se reúnem e se atravessam, como se desprovidos de substância córporea.
Eles se desvanescem em uma nuvem de poeira e folhas secas.
À minha frente, surge a figura imponente de Baphomet.
Ela/ele me encara com olhos caprinos.
Esse olhar atravessa-me a alma de ponta a ponta.
(imagem: Baphomet)
terça-feira, 7 de maio de 2019
O Amigo Morto do Facebook
Uma coisa que frequentemente me incomoda e intriga é quando um amigo morre e o perfil dele nas redes sociais continua lá, cheio de fotos sorridentes, posts espirituosos, declarações de amor à cara-metade. Murais e timelines acabam se transformando em verdadeiros epitáfios, onde parentes, amigos (e eventualmente inimigos) correm em romaria a deixar mensagens de despedida ou textos de exaltação ao morto. É lógico que as redes sociais não possuem um mecanismo capaz de detectar que determinado usuário bateu as botas, e em todas elas é o próprio que tem que cancelar sua conta – e na esmagadora maioria dos casos, nenhum de nós consegue prever a própria morte. Mesmo que alguns conseguissem, talvez não o fizessem por gostar da idéia de permanecer ali, virtualmente eternizados. Será que tem internet banda larga do outro lado?
Pois bem. Eis que ontem, sem mais nem menos, recebi uma mensagem no facebook. Imagino minha expressão ali parado, com os olhos arregalados e a boca aberta, ao ver o nome que piscava em azul na minha tela: Fábio M. Garcia. Justamente um amigo de infância, falecido há quase um ano, com o qual eu não estabelecera muito contato nos últimos dez anos de sua vida. Minha primeira, espontânea e irracional reação foi de horror, hesitei em clicar ali. Mas num segundo momento retornei à razão, imaginando que algum amigo ou parente que soubesse a senha do falecido estava a fim de fazer uma brincadeirinha boba.
“Fala, cara! Quanto tempo, hein? ;)”
Fiquei ali com cara de bobo, pensando se dava uma resposta malcriada ou simplesmente ignorava. Afinal, tratava-se de uma brincadeira bastante sem-graça, de mau gosto até. Não sou religioso, nem supersticioso, muito menos mal humorado, mas sei lá... tem coisa na vida que a gente tem que respeitar né, existem limites - e não acho de bom tom mexer com gente morta não. Resolvi pagar pra ver até onde o “troll” era capaz de chegar.
“Pois é... você sumiu...”
“Bom, se você gosta de chamar isso de ‘sumir’ ... ou não me diga que você não ficou sabendo que eu abotoei o paletó, estiquei as canelas, comi capim pela raiz, etc? Hahaha :P”
OK, aquilo estava começando a ir longe demais pra mim. Chega de piada com o finado, vou acabar com isso agora!
“Olha aqui, companheiro, você não tem respeito com aqueles que já passaram desta pra melhor não? Essa sua brincadeira é de um tremendo mau-gosto! Se a intenção foi me assustar, sinto muito, mas não acredito em fantasmas. Se foi apenas rir às custas de alguém que não está mais aqui pra se defender, só posso dizer que sinto desprezo por você.”
“Que é isso, rapaz! Sou eu, o Fábio! Pelamordedeus, pára com isso e me ouve... você não sabe o que eu tive que passar, quantas regras tive que infringir, quantas mãos tive que molhar, pra chegar até o ponto de conseguir permissão pra estar aqui e agora, chateando contigo! Vou te contar, isso aqui é muito parecido com um colégio interno... mas calma aí, que já tô falando demais e saindo do foco, me desviando do motivo que me levou a tomar essa atitude extremamente drástica pros padrões daqui...”
“Chega!!! Vou te excluir! Você morreu, quer dizer, o Fábio morreu, tá morto e enterrado, já virou comida de vermes – vermes como você que são capazes de uma atitude bizarra dessas!”
“PERAÍÍÍÍ, CARAAAA!!! Não me exclui ainda, calma, me ouve, ou seria melhor dizer ‘me lê’, hehehe :P... Vou provar que sou eu: lembra daquela noite em que...”
Daí algo inesperado, absurdo e surpreendente aconteceu: ele citou uma estória acontecida há treze anos atrás, um caso envolvendo sexo, violência gratuita e coca-cola com menthos, uma daquelas noites que você empurra pra debaixo do tapete da memória porque envolve uma série de contratempos verdadeiramente constrangedores e brutais, os quais você faz questão absoluta não só de não lembrar, como também de fazer um pacto de silêncio eterno com todas as partes envolvidas. E, no caso, a terceira parte envolvida – uma antiga colega do ginásio - também estava morta. Senti os pêlos da minha nuca se arrepiando devagar. Como alguém poderia saber daquela estória??? Calma, calma. Respira. Obviamente o Fábio, aquele filhadaputa mentiroso, havia quebrado o pacto de silêncio e contado a alguém os embaraçosos/comprometedores acontecimentos de treze anos atrás. E agora esta pessoa estava aproveitando não só pra tirar uma com a minha cara, mas talvez até pra, quem sabe, me chantagear? Comecei a suar frio. Resolvi ir direto ao ponto.
“Olha aqui, se a sua intenção é me chantagear, vamos logo com isso. Quais são seus termos, porra???”
“Caniço, Caniço, por tudo o que é mais sagrado, pela alma da sua vovozinha Genoveva, acredita em mim, cara!”
... Ó meu deus! Ele estava usando o mesmo apelido que usava pra me chamar quando éramos uma dupla inseparável na infância. E meu pavor só fez aumentar quando ele começou a escrever em código, um código que nós dois inventamos quando crianças pra trocar cartas e planos de dominação do mundo que só nós entenderíamos! Não havia motivo algum pra que ele tivesse revelado esse código pra alguém... Mas, mas... Será... Meu deus, será possível que?... Será possível???
“Olha aqui Caniço, eu não vou poder demorar muito mais tempo aqui. Mas preciso te avisar uma coisa”
“O quê... o que é?” Eu já não sabia mais em que acreditar, a garganta seca e o coração na boca.
“Você vai morrer. Esta noite.”
“O quê???.... Não... não pode ser... eu estou saudável...”
“Pode ter certeza. Desta noite você não passa. Infarto fulminante.”
Fiquei completamente imóvel, os olhos pregados na tela, a cabeça a mil, aquilo era possível? Minha mente finalmente sucumbiu ao terror: “Meu deus... não sei o que fazer, Fábio, por favor me ajude!”
“Foi concedido a você o direito de me fazer uma pergunta. Só uma. Talvez tirar alguma dúvida a respeito da passagem ou da vida após a morte possa, de alguma forma, aliviar seu medo e sofrimento, camarada.” Minha cabeça girava e as pernas tremiam. Minha mente se debatia entre o pavor insano e irracional, a negação, o desespero, que já haviam suprimido qualquer resquício de razão.
“Vai logo, cara, faz a pergunta, não temos muito tempo”
Consegui controlar por segundos meus espasmos de medo.
“A internet, aí do outro lado... é banda larga?”
Nenhuma resposta. Nem uma palavra apareceu na tela. Alguns segundos se passaram até que eu percebesse que a minha própria internet banda larga me deixara na mão naquele exato instante!
Pelo sim, pelo não, deletei meu perfil do facebook.
Pois bem. Eis que ontem, sem mais nem menos, recebi uma mensagem no facebook. Imagino minha expressão ali parado, com os olhos arregalados e a boca aberta, ao ver o nome que piscava em azul na minha tela: Fábio M. Garcia. Justamente um amigo de infância, falecido há quase um ano, com o qual eu não estabelecera muito contato nos últimos dez anos de sua vida. Minha primeira, espontânea e irracional reação foi de horror, hesitei em clicar ali. Mas num segundo momento retornei à razão, imaginando que algum amigo ou parente que soubesse a senha do falecido estava a fim de fazer uma brincadeirinha boba.
“Fala, cara! Quanto tempo, hein? ;)”
Fiquei ali com cara de bobo, pensando se dava uma resposta malcriada ou simplesmente ignorava. Afinal, tratava-se de uma brincadeira bastante sem-graça, de mau gosto até. Não sou religioso, nem supersticioso, muito menos mal humorado, mas sei lá... tem coisa na vida que a gente tem que respeitar né, existem limites - e não acho de bom tom mexer com gente morta não. Resolvi pagar pra ver até onde o “troll” era capaz de chegar.
“Pois é... você sumiu...”
“Bom, se você gosta de chamar isso de ‘sumir’ ... ou não me diga que você não ficou sabendo que eu abotoei o paletó, estiquei as canelas, comi capim pela raiz, etc? Hahaha :P”
OK, aquilo estava começando a ir longe demais pra mim. Chega de piada com o finado, vou acabar com isso agora!
“Olha aqui, companheiro, você não tem respeito com aqueles que já passaram desta pra melhor não? Essa sua brincadeira é de um tremendo mau-gosto! Se a intenção foi me assustar, sinto muito, mas não acredito em fantasmas. Se foi apenas rir às custas de alguém que não está mais aqui pra se defender, só posso dizer que sinto desprezo por você.”
“Que é isso, rapaz! Sou eu, o Fábio! Pelamordedeus, pára com isso e me ouve... você não sabe o que eu tive que passar, quantas regras tive que infringir, quantas mãos tive que molhar, pra chegar até o ponto de conseguir permissão pra estar aqui e agora, chateando contigo! Vou te contar, isso aqui é muito parecido com um colégio interno... mas calma aí, que já tô falando demais e saindo do foco, me desviando do motivo que me levou a tomar essa atitude extremamente drástica pros padrões daqui...”
“Chega!!! Vou te excluir! Você morreu, quer dizer, o Fábio morreu, tá morto e enterrado, já virou comida de vermes – vermes como você que são capazes de uma atitude bizarra dessas!”
“PERAÍÍÍÍ, CARAAAA!!! Não me exclui ainda, calma, me ouve, ou seria melhor dizer ‘me lê’, hehehe :P... Vou provar que sou eu: lembra daquela noite em que...”
Daí algo inesperado, absurdo e surpreendente aconteceu: ele citou uma estória acontecida há treze anos atrás, um caso envolvendo sexo, violência gratuita e coca-cola com menthos, uma daquelas noites que você empurra pra debaixo do tapete da memória porque envolve uma série de contratempos verdadeiramente constrangedores e brutais, os quais você faz questão absoluta não só de não lembrar, como também de fazer um pacto de silêncio eterno com todas as partes envolvidas. E, no caso, a terceira parte envolvida – uma antiga colega do ginásio - também estava morta. Senti os pêlos da minha nuca se arrepiando devagar. Como alguém poderia saber daquela estória??? Calma, calma. Respira. Obviamente o Fábio, aquele filhadaputa mentiroso, havia quebrado o pacto de silêncio e contado a alguém os embaraçosos/comprometedores acontecimentos de treze anos atrás. E agora esta pessoa estava aproveitando não só pra tirar uma com a minha cara, mas talvez até pra, quem sabe, me chantagear? Comecei a suar frio. Resolvi ir direto ao ponto.
“Olha aqui, se a sua intenção é me chantagear, vamos logo com isso. Quais são seus termos, porra???”
“Caniço, Caniço, por tudo o que é mais sagrado, pela alma da sua vovozinha Genoveva, acredita em mim, cara!”
... Ó meu deus! Ele estava usando o mesmo apelido que usava pra me chamar quando éramos uma dupla inseparável na infância. E meu pavor só fez aumentar quando ele começou a escrever em código, um código que nós dois inventamos quando crianças pra trocar cartas e planos de dominação do mundo que só nós entenderíamos! Não havia motivo algum pra que ele tivesse revelado esse código pra alguém... Mas, mas... Será... Meu deus, será possível que?... Será possível???
“Olha aqui Caniço, eu não vou poder demorar muito mais tempo aqui. Mas preciso te avisar uma coisa”
“O quê... o que é?” Eu já não sabia mais em que acreditar, a garganta seca e o coração na boca.
“Você vai morrer. Esta noite.”
“O quê???.... Não... não pode ser... eu estou saudável...”
“Pode ter certeza. Desta noite você não passa. Infarto fulminante.”
Fiquei completamente imóvel, os olhos pregados na tela, a cabeça a mil, aquilo era possível? Minha mente finalmente sucumbiu ao terror: “Meu deus... não sei o que fazer, Fábio, por favor me ajude!”
“Foi concedido a você o direito de me fazer uma pergunta. Só uma. Talvez tirar alguma dúvida a respeito da passagem ou da vida após a morte possa, de alguma forma, aliviar seu medo e sofrimento, camarada.” Minha cabeça girava e as pernas tremiam. Minha mente se debatia entre o pavor insano e irracional, a negação, o desespero, que já haviam suprimido qualquer resquício de razão.
“Vai logo, cara, faz a pergunta, não temos muito tempo”
Consegui controlar por segundos meus espasmos de medo.
“A internet, aí do outro lado... é banda larga?”
Nenhuma resposta. Nem uma palavra apareceu na tela. Alguns segundos se passaram até que eu percebesse que a minha própria internet banda larga me deixara na mão naquele exato instante!
Pelo sim, pelo não, deletei meu perfil do facebook.
domingo, 7 de outubro de 2018
Sonho III
Em um lado de uma sala bem iluminada com lâmpadas frias, sem nenhuma janela, estão três homens sentados num sofá. Do outro lado, de frente pra eles, está um outro homem, sentado numa cadeira (ele está nu mas isso só é percebido um pouco mais pra frente). Entre eles, apenas uma mesa de centro. O homem na cadeira tem um olhar extremamente horrorizado e um corte profundo em toda a extensão do queixo, como se alguém tivesse tentado esfolar seu rosto. Há um pedaço de pele caindo, pendurado em seu queixo, com um pouco de carne grudada. O homem com o corte no queixo pergunta baixinho "O que aconteceu durante a noite?". Um dos três homens no sofá, o que está sentado no meio, responde com um sorriso sarcástico: "Você não gostaria de saber". Neste momento o homem na cadeira dá um grito de dor profunda, e então percebe-se que o saco dele está enorme, mas muito grande mesmo, com tamanho e aparência de uma jaca. Ele uiva de dor e coloca a mão no saco, que de repente se rompe e de lá de dentro vão saindo fofinhas raposas bebês.
(imagem: Kitsune, raposa mítica japonesa de nove caudas, por Utagawa Kuniyoshi)
(imagem: Kitsune, raposa mítica japonesa de nove caudas, por Utagawa Kuniyoshi)
sábado, 7 de outubro de 2017
Burlesque Lover
Quero fazer movimentos fluidos
no palco apático da tua libido.
Fazer em teu corpo, comedido,
Estático, encolhido,
o corte profundo de um simples afago.
(na foto, Luz Del Fuego)
quinta-feira, 1 de outubro de 2015
Numa tarde de quarta...
Numa tarde de quarta-feira que deveria ser apenas mais uma como outra tarde de quarta-feira qualquer, ela se viu empreendendo uma profunda, dolorosa e ao mesmo tempo enternecida, jornada emocional. Por um motivo corriqueiro, ela teve que visitar o bairro onde nasceu, viveu sua infância, adolescência, cresceu. Depois desses anos intensos, ela saiu de lá, casou, descasou, rodou por aqui e ali, e acabou por achar outro bairro, outra gente, outro bar, outra praça pra chamar de seus.
Tinha algo de urgente, em meio ao corre-corre diário, pra resolver ali. Era coisa, rápida, de bate-pronto, pá pum. Um ônibus, um metrô, uma rápida caminhada. Dava pra encaixar naquelas duas horinhas entre um compromisso e outro daquele dia cheio.
O que ela não esperava é que o retorno àquela vizinhança, naquela tarde abafada e banal, fosse provocar em seu peito tamanha avalanche de sensações e lembranças. Avalanche que começou com uma leve pontada de saudade e reconhecimento quando ela emergiu da estação do metrô. A visão daquela praça, daquela rua repleta de flores, ladeada pelos antigos cinemas da infância, fez ela parar por um minuto e respirar mais fundo, tomar um pouco de fôlego pra continuar.Os cinemas, como tem sido o infeliz costume na cidade esvaziada de alma, deram lugar a uma igreja universal e a uma hiper-farmácia, mas a memória da fila virando o quarteirão em dia de estréia de filme encheram seu coração de cálida nostalgia. O assunto a ser resolvido era bem ali próximo, e depois do fôlego recuperado ela atravessou a rua florida e cumpriu rapidamente sua missão. Na volta, no entanto, ao invés de descer a escadaria do metrô, ela se sentiu irresistivelmente compelida a andar na direção contrária, rumo às galerias onde, por um outro motivo, ou por pura falta deles, ela havia muitas e muitas vezes circulado. Entrou por uma, tomada de lembranças, mas saiu logo pelo outro lado, porque a verdadeira emoção encontrava-se na próxima galeria adiante.
Apesar de muita coisa haver mudado, ali ainda estavam, como que congelados no tempo, o antigo estúdio de tatuagens e as mesmas lojas de discos e camisetas. Ali, naquelas lojas, naquela galeria, reuniam-se os metaleiros, os punks, todos os fãs do bom e velho roquenrrol habitantes do bairro, e de outros cantos da cidade também. Ali as lembranças tornaram-se mais nítidas, mais vivas, desenrolando-se em sua memória com inesperada clareza e vigor. Mais uma pausa pra respirar fundo.
Ela sentiu que queria caminhar. Para onde ela ainda não sabia, mas aquela de sensação de calorosa familiaridade com o espaço ao redor a deixou subitamente repleta de energia. Foi caminhando pela movimentada rua principal, lentamente, contrastando com as outras pessoas que perambulavam apressadas pra lá e pra cá, no frenesi urgente das duas e meia da tarde daquela quarta-feira. Ela olhava tudo e ia reparando no que mudou, no que permanece igual. Passou por mais um dos finados cinemas do bairro, transfigurado em gigantesca loja de departamentos. "Oh não, mais um, que pontada no coração".
Cada metro de calçada transcorrido a levava a novas e vívidas lembranças, "fulano morava aqui, como me diverti nas matinês nesse clube, olha! aquela loja ainda existe no mesmo lugar!".
Quase sem querer, quase sem notar, suas pernas a levavam mais e mais próxima do entorno onde ela morou. Uma lanchonete, uma igreja, um banco, mais uma galeria (como o bairro é cheio delas, solenes e imponentes!). Uma grande loja, um supermercado. Quando deu por si, ela já estava na esquina da outra praça.
A outra praça. Que na verdade, pra ela, é A praça. Naquela grande, arborizada, bucólica praça e seu entorno, ela vivera muitas de suas melhores aventuras. Desde a infância brincando no playground de ferro e cavalgando os amados cavalinhos ou voltando pra casa de charrete, até a adolescência com suas emoções avassaladoras, seus dias calmos de conversas e paqueras intermináveis à sombra das árvores, na lanchonete, no gradil sobre o velho e fétido rio - já totalmente poluído àquela época. Ela respirou o ar da praça, neste ponto já tão emocionada que era como se um nó lhe apertasse com força a garganta. A praça estava ainda mais bonita do que ela se recordava, reformada, cheia de vida como sempre fôra, porém agora mais limpa e organizada, crianças brincando, idosos jogando cartas, gente correndo ao redor ou fazendo exercícios na nova academia ao ar-livre. A velha barraquinha de cachorro-quente dera lugar a sofisticado food truck, sinal dos tempos.
Foi caminhar mais uma quadra pra notar que o boteco pé-sujo que ela frequentava, ponto de encontro dos amigos de outrora pra cerveja, vadiagem, conversa fora, se transformara em uma padaria "gurmetizada". Embora o ambiente fosse a antítese daquele que ela guardava na memória, não resistiu ao apelo de tomar uma cerveja gelada, brindando consigo mesma às boas memórias e à algumas talvez não tão boas assim, ponderando que todas fizeram parte, de uma forma ou de outra, do tão necessário aprendizado da vida.
Ao lado do bar, há exatos 20 anos, morava o seu primeiro amor, sua primeira paixão avassaladora, naquele tempo de descobertas, de querer devorar o mundo todo ao mesmo tempo, de querer experimentar tudo que a vida tem pra oferecer de uma vez só, como se tudo fosse acabar amanhã. Tantas lembranças, boas e ruins, olhando praquele prédio, a portaria, o play. Desejou, mesmo sabendo impossível, voltar a ser aquela menina, mas com a sabedoria e experiência de agora. O nó se apertou.
Mais alguns passos, e antes de entrar na ruazinha sem saída parou sob a sombra da marquise do prédio da esquina, como costumava fazer na época, e pôs-se a observar o ir e vir de quem passava, como fazia então, sozinha ou acompanhada. Ao percorrer a pequena e arborizada rua sem saída, surpreendeu-se com a descoberta de que agora ela dava na entrada dos fundos de um grande supermercado. "Ah, se essas árvores pudessem falar..."
Atravessou o grande supermercado, dando mais uma vez na rua principal. Virou na próxima esquina, chegou na praça de novo, sentou ali num banco, de frente ao outro bar, com a cabeça e o peito atordoados de lembranças - uma mesa compartilhada com a amiga inseparável, camisetinha preta com logo da Harley-davidson, saia longa indiana, coturnos. Mate, bolinhos de bacalhau, risadas – muitas, muitas risadas! Começou a se sentir profundamente familiarizada com aquelas pessoas que passavam, que corriam, que passeavam com seus cães, que bebiam no bar à frente.
Nessa hora o estômago roncou, e pra fechar essa tarde de intensa nostalgia com chave de ouro, não poderia haver melhor pedida do que a tradicional empada que, embora atualmente fosse facilmente encontrada nos quatro cantos da cidade, ainda podia ser saboreada ali, na mesma loja da rua principal do bairro onde ela nasceu. A empada continua tão boa quanto nos velhos tempos, em que o filho do dono trabalhava na loja e ela aproveitava a ocasião de comprar empadas pro lanche da família pra poder admirar timidamente aqueles belos cabelos longos...
Fome saciada, coração acalentado, ela sentiu que era hora de voltar pra casa e pro aqui-e-agora. Avistou um ponto de ônibus e pra lá se dirigiu, cansada, confusa, nostálgica, sentindo-se um pouco tonta com a mistura inexplicável de excitação, exaustão e melancolia latejando dentro dela. Enquanto, sentada no ônibus a caminho do Centro, a mulher que ela é empreendia um lento e gradual retorno ao tempo atual em meio ao trânsito caótico da hora do rush , a menina que ela era naquele pretérito imperfeito, sorrindo em seu quarto no antigo apartamento, sonhava com o futuro emocionante que se estendia misterioso à sua frente.
(imagem: Chiara Bautista, aka Milk)
terça-feira, 24 de maio de 2011
P a s s a t e m p o

Às vezes tenho vontade de ter febre, apenas pra sentir-me queimar novamente. Tenho uma nova obsessão: invento romances que não existem porque brincar de faz-de-conta ajuda a esquecer a dor da passagem do tempo. Mas a realidade volta e meia solicita minha presença com a voz fria de quem anuncia o portão de embarque de um vôo pra lugar nehum. Minha vó costuma dizer: “cabeça vazia, oficina do diabo”. Uma amiga ‘viada’ diz simplesmente, me sacudindo: “Get a life, biatch!”. Eu retiro do fundo da gaveta empoeirada aquela resposta pobre, mas limpinha, pra entregar pra minha vó, que já está morta, e pra minha amiga – que é imaginária. A mesma resposta que dou pra minha consciência todas as vezes em que ela resolve vestir seu uniforme de governanta alemã e me cobrar atitudes: “Tô tentando, mas vocês não sabem o quanto anda difícil ser eu ultimamente.” E me regozijo do quanto eu posso ser cretina e auto-piedosa, e sinto um nojinho de mim que é quase gostoso de sentir. Mas passa rápido.
No fundo sou apenas uma garota que ainda não conseguiu entender exatamente o que é ser uma mulher, embora não o admita a nenhum ser vivente que não seu gato persa e sua tartaruga chamada Dinorah, e desconfia que isso pode perdurar até que ela morra aos 80 anos, louca e esquecida em algum tempo ancestral ao seu.
Nos meus romances inventados há muito pouco drama, o amor é descomplicado e as horas boas passam lentas, como deveria ser na vida real, mas quase nunca é. Alterno minhas tardes e noites (as manhãs dedico aos sonhos) entre habitar fantasias febris e esvaziar minha mente com pequenas distrações mundanas, adiando o mundo lá fora, que ainda assim, vez por outra, insiste em arrombar a porta da minha casa quando um vento mais forte de vida real a impele a se abrir sem que eu o permita.
Meus dias passam lentos porque são tediosos, e minutos de tédio escorrem devagar por entre os meus dedos enrugados depois de horas desperdiçadas na banheira cheia de água com sais importados da Índia que minha amiga imaginária trouxe da última de sua série de excursões excêntricas à procura de sua “verdade interior” (o que quer que isso signifique). Ela gosta de viajar, eu não. Eu gosto de inventar.
Invento-me amando e sendo amada, invento-me atravessando céus e mares e enfrentando toda série de perigos pra reaver um amor perdido, uma verdadeira heroína romântica. Inverto o jogo e invento-me cruel e desejada, com o coração congelado por uma sequência inifindável de desilusões amorosas. Invento-me piedosa e magnânima, bela e aventureira, altiva e inescrupulosa, misteriosa e vulnerável. Transformo-me numa massa crua e versátil a qual posso modelar à merce dos meus desejos mais íntimos e muitas vezes inconfessáveis.
Passo o tempo, e ele inevitavelmente passa por mim. Mas dói menos assim. Passatempo preferido.
segunda-feira, 9 de maio de 2011
Trying to get back

Passei por aqui pra lembrar que meu blog existe, pra me reler e principalmente pra me lembrar da existência desse "eu". Esse "eu" que escreve porque isso é uma das coisas que o torna singular, que o tira da mesquinhez enfadonha da rotina, que torna aquilo que chamam de dia-a-dia, por vezes, simplesmente extraordinário. Que lhe proporciona pequenos e peculiares momentos de extrema beleza. Momentos de vislumbrar a beleza em si e algumas vezes até quase tocá-la. Experimentá-la próxima com um estremecimento de prazer - e de medo, pois onde anda o prazer, anda o medo ali à espreita. Momentos de jogar palavras no papel - ou na tela - são momentos de experimentação do sublime. Quero ter novamente muitos destes momentos quebrando a linearidade tristonha da existência.
Esse "eu" vai voltar? Não sei.
(a imagem é um trabalho do Fred Einaudi: http://fredeinaudi.blogspot.com/)
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