quinta-feira, 29 de maio de 2008

Bromélia

Na janela da sala temos um vaso com uma bromélia. Tínhamos sonhos e fazíamos planos. Tínhamos a sólida certeza de um futuro em comum e a confortável segurança de um amor tranquilo. Éramos cúmplices.
A bromélia foi comprada no dia mesmo em que nos mudamos para nossa casa. Enfim juntos. Enfim sós. Coloquei-a na janela do apartamento completamente vazio. A bromélia foi o nosso primeiro bem comum.
Hoje parto. Da casa, agora cheia de móveis e objetos, levo apenas uma mochila com algumas roupas e pertences pessoais, além da caixinha de música onde aos poucos fui guardando os cacos dos sonhos estilhaçados, e agora carrego comigo como um macabro souvenir.
A bromélia continua lá. Vou até a janela, mochila já nas costas, pego o vaso e me viro na direção da porta da rua; paro, tomando um último fôlego. Então ele aparece no final do corredor, desgrenhado, com duas enormes bolsas embaixo dos olhos. “Não devo estar muito melhor do que isso”, eu penso, enquanto tento obrigar minhas pernas a caminhar rumo à desconhecida e tantas vezes ansiada liberdade do mundo lá fora.
Antes que eu consiga fazê-las me obedecer, ele me alcança.e segura firme em meu antebraço – como já o fizera tantas vezes antes, e eu sinto a força e a coragem a tanto custo reunidas começando a esvair-se por entre os dedos cravados em minha carne.
“O que você está fazendo?” – apenas um sussurro entre os entre os dentes trincados – “o que pensa que está fazendo???”
“Adeus” – é tudo o que consigo responder, cabeça baixa, sem conseguir encarar seus olhos inflamados.
“A bromélia fica.”
“O quê?”
“Você vai, sua puta, e a bromélia fica.”
Sinto que estou perdendo o controle : “mas fui quem comprou a porra da bromélia!!!!”
Num impulso vigoroso me desvencilho de seu punho cravado no meu antebraço, empurrando-o para o lado com toda a força de que sou capaz. Ele então investe furioso sobre mim, os dois braços esticados em direção ao meu pescoço. Eu seguro o vaso da bromélia entre as mãos, fazendo menção de quebrá-lo, até sentir suas mãos em volta do meu pescoço. Apertando firme. Sinto-me sufocar e o vaso escorrega por entre os meus braços, espatifando-se no chão. Ele então afrouxa as mãos em volta do meu pescoço, ambos olhamos para o vaso espatifado no chão, terra e cacos espalhados. Por alguns segundos ficamos parados ali olhando, como se o tempo estivesse em suspenso.
Então ele me olha com lágrimas nos olhos, passa as mãos em meus cabelos e me envolve em um abraço apertado de desespero. Angústia e lágrimas misturam-se à densa atmosfera deste instante. Agora ambos choramos compulsivamente, e uma exaustão mais forte do que eu me impede de tentar resistir quando ele cola sua boca na minha . Então nos beijamos sôfregamente, suados e exauridos, rostos cobertos de lágrimas, músculos trêmulos.
Ele finalmente me solta. Sinto-me partida ao meio e caio de joelhos ao lado do vaso espatifado no chão. Não consigo conter a torrente de lágrimas. Ele se aproxima tirando a mochila das minhas costas.
“É melhor você limpar essa sujeira”, é o que ouço ele dizer enquanto caminha em direção ao quarto. (Ilustração de Margareth Mee)

Um comentário:

MELissa disse...

snif.... snif...